Tag: O medo de amar

  • O medo de amar

    O meu primeiro amor me envolveu de terror
    O meu primeiro amor foi regado a sexo e agressão
    Primeiro amor onde tudo é conto de fadas
    Onde as fadas encantadas se transformam em desespero
    O primeiro amor…
    Um amor mal resolvido
    Resistente aos diálogos mais pertinentes
    Primeiro e quase o último amor


    Surra brutalmente quem assim diz amar
    No meu primeiro amor perdi parte da minha visão
    É o amor que machuca o corpo
    Que violenta a alma
    Que orquestra perseguição diária
    O meu primeiro amor que tão tarde acabou
    Agora, os meus sonhos estão condicionados
    Amor e barbárie daqui para frente são sinônimos
    Prece e companhia não existem mais
    Sou eu e o medo de ser encontrada
    Em qualquer tarde que eu estiver distraída
    Do primeiro amor temporariamente estou livre.

    O tempo passa e eu caminho pelas ruas
    Mas pareço uma fugitiva
    No canto de cada esquina eu o vejo
    Na sombra de cada árvore eu te pressinto
    Sinto que sou alertada
    Pelas pancadas da noite passada
    Passado que todos os dias insiste em ser presente
    No fundo da minha existência
    Eu só existo com medo
    O medo que me assola o tempo inteiro
    Que me obriga a me refugiar em mim mesma
    A me desintegrar por inteira
    Os sonhos são sempre sonhos de fuga
    Noite de intensa covardia
    Que desrespeita o meu esconderijo
    O que fazer se me encontro presa aqui?
    No subsolo de minha história eu tento sobreviver
    Tento existir
    O lugar é muito frio
    Os meus olhos já não sabem o que é ver
    Histórias já não as ouço mais
    Tudo é silêncio
    Sem cores
    Sem qualquer sentimento
    Daqui para frente nada mais do que desejo poderei realizar.

    O sol de toda a manhã não poderei mais senti-lo em meu rosto
    O sorriso de minhas crianças cessou
    Silêncio…
    Tudo à minha volta em silêncio
    É a minha condição permanente
    De cada porrada injustificada
    Mas ele segue livre
    Para seduzir outras novas vítimas
    O que não é normal nessa história toda
    É o silêncio do Estado
    O silêncio que permanece apoiando sempre o outro lado
    Por compartilharem da mesma ideologia
    O meu primeiro amor
    Me tornou hoje mais uma vítima do feminicídio.

    Carlos de Campos