• Vítima de uma sociedade doentia



    “Vítima de uma sociedade doentia” é uma composição que traduz, com intensidade e sobriedade, o colapso existencial do sujeito moderno diante de uma realidade opressora.

    Vítima de uma sociedade doentia

    O elevador quebrou.
    Como sair daqui?
    Na aparência, transbordo calma,
    mas me encontro transtornado.

    O elevador parou entre o oitavo e o décimo quinto andar.
    Estou sozinho,
    angustiado e sem comunicação.
    Morte iminente?

    Finjo estar no controle,
    mas, no auge do desespero, me encontro.
    Encontro-me desnorteado.
    Estou quase sendo descoberto.

    Na iminência de uma vida em risco,
    uma vida solitária,
    destemida,
    até ser surpreendida.

    Cabe não estar perto.
    O destino está no fio da navalha,
    destino ao alcance da vida,
    de uma vida triste.

    O elevador me sufoca
    com suas mãos metálicas,
    envolvendo o meu pescoço,
    enquanto definha a minha alma.

    Desce a minha alma,
    engolida pelo fosso da existência,
    existência de horrores,
    pela minha própria falta de sorte.

    O elevador parado no quarto andar.
    Destino concentrado na alma que se foi.
    A vida vai dando os seus últimos suspiros
    no fio de uma navalha afiadíssima.

    O elevador chega ao seu destino —
    um destino incerto,
    de uma caminhada vacilante,
    destino destemido.

    E a minha alma?
    Quando retornará a esse pobre corpo?
    Ao corpo que mais se parece a escombros,
    que caminha fingindo ser feliz.


    Elevador parado no décimo andar:
    um corpo fétido de morte,
    uma alma decaída no fosso da negligência,
    em seu último suspiro.

    Carlos de Campos

    Foto por asunny Wi em Pexels.com
  • Sentimentos arrastados pela escuridão



    Sentimentos arrastados pela escuridão

    Em suas tramas me envolvo,
    em desejos me desfaço,
    no calabouço de uma vida maldita
    que dita as regras de minha agonia.

    O desespero bate à porta,
    das incongruências me alimento,
    despido de minha arrogância,
    dos medos que me subtraem toda a esperança.

    Imutável é o meu desejo,
    e por isso sinto calafrios
    que perpetuam a minha angústia,
    feia e terrível.

    É a divindade que sufoca
    no sufoco mortal de uma vida,
    de uma vida ferida,
    no peito que sangra todos os dias.

    Nos escuros da viela nos encontramos,
    copulamos…
    restando corpos nos telhados,
    que destelhados estavam nesse momento.

    Me escondo nas vielas,
    na morte que me persegue,
    nos corpos desossados,
    no desejo que me faz viver.

    Nos dias que maltratam a alma,
    que cegam a minha razão,
    nos dias que não passam,
    na esperança que não existe mais.

    Eficientes são as tuas maneiras de enxergar,
    de ver na sombra da vida uma solução,
    dominando a arte da sedução,
    da ilusão que mais te comove.

    Incinerar o amor de sua vida,
    que há anos já se encontra putrefato,
    e que seguir é preciso,
    mesmo diante de um espelho sem reflexo.

    Mudar sua mentalidade corrompida,
    carniceira de um ego podre,
    podre pelos delírios do passado,
    que passa à margem de sua história.

    Ufanismo de uma epopeia trágica,
    de um existir encarcerado por sua própria mente,
    uma mente que mente para si mesma,
    nada do que faça faz mais nenhum sentido.

    Carlos de Campos
    Foto por Can Ceylan em Pexels.com