Tag: alcoolismo

  • Cansado de Ser Solidão

    Cansado de Ser Solidão

    Abro a janela com o desânimo estampado na alma.
    Na escuridão da noite, eu me refugio.
    Da mente atormentada tento me afastar,
    e no vazio encontro o meu sentido.
    Suave é o peso que devo carregar.
    É suave nos sufocar constantemente.
    De um dia para o outro, me prendo ainda mais.

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    Um mar de mágoas me submerge.
    Me afogo, esperneio até me cansar.
    Afundo devagar, muito devagar.
    Aos poucos, não sinto mais meu corpo.
    Esse antro de preocupações,
    desejos assombrados,
    volta para a superfície.
    Tento respirar os tóxicos existenciais,
    a amargura universal
    estampada em nossa cara,
    a cara de iludidos.
    Me afogo no êxtase da realidade,
    no alcoolismo das minhas entranhas.
    Na fuga, acendo um cigarro contendo nicotina.

    Aqui nesta terra precisamos escolher.
    Um passo de cada vez para sobreviver.
    Um experienciar de cada sensação por vez.
    Na sutileza da vida, desconfiar
    para mais tarde não se ferir.
    Em cada amanhecer é preciso ser feliz,
    mesmo que isso lhe custe a própria vida.

    Carlos de Campos
    Foto por Leonid Danilov em Pexels.com
  • No peito bate um vazio

    No peito bate um vazio

    Na manhã desta segunda-feira, sem que eu soubesse de nada, ele foi embora. E com ele, levou minha filha.
    Em mais um ato canalha e covarde, ele ainda orquestrou o sequestro dela. Nada posso fazer além de chorar.

    Sou alcoólatra. Estou desempregada. Passei a maior parte da minha vida morando entre uma calçada e outra.
    Em que mundo eu ganharia a guarda da minha filha? É um jogo perdido. E agora? Que rumo devo tomar na vida?
    O único fio que me segurava aqui acabou de se romper.

    Vago pelas ruas na esperança de reencontrar minha filha.
    Bêbada, ando meio quarteirão por dia. Quando paro, minha mente tenta me trazer de volta à lucidez.

    É difícil para mim viver sóbria, porque, ao ficar sóbria, sou levada a verdades que me machucam demais.
    A realidade é dura demais para mim.
    Preciso me manter afastada dela — e, alcoolizada, é o melhor que posso fazer por mim mesma.

    Nos meus poucos dias de sobriedade, martela no meu peito a dor de não ter conseguido ser mãe.
    A culpa por ter me deixado levar pelo alcoolismo me consome.
    Quem sou eu além de uma andarilha? A noite mal chegou e cá estou, completamente bêbada.
    Há uma tristeza pairando no ar — bem mais poderosa do que em outras vezes.
    Desta vez, até alcoolizada consigo senti-la.
    Ela rasga o meu peito com um vazio descomunal.
    E eu não tenho para onde correr.

    Carlos de Campos

    Foto por Emre Y. em Pexels.com