Tag: alma e destino

  • Na imensa travessia, me perco de você

    Na imensa travessia, me perco de você

    No inevitável, você surge.
    No silêncio, eu falo.
    Não faz sentido: no êxtase, nós nos desencontramos.
    Puro desequilíbrio.

    Desisto no alto-mar da vida,
    no mais profundo de minha alma,
    no milagre que nunca veio.
    Sou a mansão dos mortos-vivos.

    Perdido em pensamentos,
    me vejo suspenso,
    sem destino,
    eu — nessa inconformidade.

    O vento toca o meu rosto.
    Me entrego a essa paz,
    uma paz tão retraída,
    tímida de amor.

    Imensidão de um vazio sem fim,
    tormento de uma cabeça desintegrada.
    Sem conexão, seguem a alma e o corpo:
    fim de um ciclo virtuoso.

    O mundo muda e tudo absorve.
    O destino cria sentido,
    pálido e palpável.
    Urge uma longa transformação.

    Carlos de Campos
    Foto por 3D Render em Pexels.com
  • Vítima de uma sociedade doentia



    “Vítima de uma sociedade doentia” é uma composição que traduz, com intensidade e sobriedade, o colapso existencial do sujeito moderno diante de uma realidade opressora.

    Vítima de uma sociedade doentia

    O elevador quebrou.
    Como sair daqui?
    Na aparência, transbordo calma,
    mas me encontro transtornado.

    O elevador parou entre o oitavo e o décimo quinto andar.
    Estou sozinho,
    angustiado e sem comunicação.
    Morte iminente?

    Finjo estar no controle,
    mas, no auge do desespero, me encontro.
    Encontro-me desnorteado.
    Estou quase sendo descoberto.

    Na iminência de uma vida em risco,
    uma vida solitária,
    destemida,
    até ser surpreendida.

    Cabe não estar perto.
    O destino está no fio da navalha,
    destino ao alcance da vida,
    de uma vida triste.

    O elevador me sufoca
    com suas mãos metálicas,
    envolvendo o meu pescoço,
    enquanto definha a minha alma.

    Desce a minha alma,
    engolida pelo fosso da existência,
    existência de horrores,
    pela minha própria falta de sorte.

    O elevador parado no quarto andar.
    Destino concentrado na alma que se foi.
    A vida vai dando os seus últimos suspiros
    no fio de uma navalha afiadíssima.

    O elevador chega ao seu destino —
    um destino incerto,
    de uma caminhada vacilante,
    destino destemido.

    E a minha alma?
    Quando retornará a esse pobre corpo?
    Ao corpo que mais se parece a escombros,
    que caminha fingindo ser feliz.


    Elevador parado no décimo andar:
    um corpo fétido de morte,
    uma alma decaída no fosso da negligência,
    em seu último suspiro.

    Carlos de Campos

    Foto por asunny Wi em Pexels.com