Sua mão cansada dá sinais do seu último suspiro. É chegada a hora, a hora tão esperada. Sim, quantas noites sem dormir, dias sem viver, só ruminando como seria esse dia, me debruçando sobre o que já era muito óbvio: que esse dia chegaria. Nesse momento, em que nada mais importa, sou tomado por uma paz entre a falta de ar e os apitos estridentes das máquinas que me mantêm minimamente vivo. Sou abruptamente convencido pela existência a agradecer pelo dom de minha vida. Quem é que teve uma vida longa e plena? Há vidas e vidas, e nenhuma é igual à outra.
Seu rosto pálido é absorvido por uma profunda meditação. Se contorcendo por causa das dores pelo corpo e da agonia, entre delírios, vai se aproximando do fundo do poço existencial. Caminhando rumo ao desconhecido, aspecto que muito me atormentava, caminho tão esperado e pouco desejado, rumo certo para todos e ignorado por muitos. No entardecer daquele dia, pude sentir o trem do fim se aproximando, pude ouvir, quase com uma nitidez surpreendente, o tilintar do apito, que soava como se estivesse sendo tocada a Nona Sinfonia de Beethoven. Esse é o único momento em que não existe medo, por já estar no colo confortável onde fomos colocados. Só resta, agora, a certeza de que esse é um momento único que precisamos vivenciar, vivenciar para que a vida possa ser prolongada. Não, viver porque essa é nossa última oportunidade, doce ilusão. Observo que já não existe medo em mim, nem qualquer confusão, desejo de fuga. Sinto que estou em uma grande harmonia. Agora, tudo o que tenho é essa paz que me toma pelas mãos, o amor que me aquece em um equilíbrio fino de todo o processo em que estou envolvido, não por minha vontade, mas agora estou sem ter como voltar, simplesmente vivendo esse momento. Emergido em uma maravilhosa compreensão, nem mais me importo com as possíveis consequências para onde tudo isso vai me levar, só vou sendo levado e experimentando cada segundo.
Urge, o tempo se aproxima e tudo foi preparado com muita delicadeza. O momento chegou e é hora de se despedir deste mundo, os últimos segundos, os últimos suspiros, olhos pesados, uma brisa leve a tocar meu rosto. O silêncio se acomoda ao meu lado. Pronto, tenho que ir embora. Silêncio.
Seu corpo frio vai sendo conduzido, onde toda a matéria orgânica será reduzida a pó. Pensar sobre isso é um tanto incômodo, perceber que todos os esforços de lutas, promoções no trabalho, estudos em universidade, fama, dinheiro, simplesmente se acabam em um lugar comum a todos: a morte. Seu funeral me leva a uma reflexão: ‘O que é a vida quando não lhe damos um sentido comunitário? O que é a vida se não a extrapolamos, além do nosso próprio umbigo? O mais triste de uma vida é ter morrido sem ter deixado uma marca positiva na história. O despertador toca. Apesar da preguiça, preciso me levantar e ir trabalhar. Sem deixar cair no esquecimento esse sonho que me faz reconsiderar a minha simples existência.
Na incompreensão do fato, a mente continua dormindo, observando o aumento do medo que bagunça são os meus sentimentos. Prefiro deixar as inconsistências de lado, de maneira a não ficar pensando nelas a toda hora. Não existe movimento; os movimentos cessaram, assim como os movimentos da mente que ia de um lado para o outro sem dar um tempo para o descanso.
Observo tudo o que a minha mente me propõe, mesmo sem entender; observo. Hoje é só mais um dia para tentar entender essa mente fria, corpo e mente procurando uma melhor compreensão de como ser em harmonia.
— Existe perigo para a mente quando não se percebe que lhe falta encontrar um certo equilíbrio? Na vida, o que procuramos constantemente é ter o mínimo de equilíbrio entre o que fazemos e pensamos, para que justamente possamos domar a nossa mente, para que o corpo possa seguir com mais tranquilidade por esta vida. Lidamos sempre com os extremos — da emoção para a razão em um estalar de dedos, e vice-versa.
É armadilha insistir que Deus existe, Também é verdadeiro negar sua existência. Quem melhor para nos dizer sobre esse fato, Além dos fatos que, de fato, nos rodeiam?
Neste vasto laboratório a céu aberto, Existe um contexto, Existe um fato, Fatos da vida.
É preciso ter coragem, Pausar e olhar a realidade, Confrontar a realidade dos fatos dentro do contexto, E discernir: quem é Deus em minha vida, de fato?
Coragem Para confrontar a realidade de nossa vida Com os "ensinamentos" ditos sagrados, Por um momento, ruminar.
Deus permitiria isso em minha vida? Quem está ganhando com a situação em que me encontro? Sou o reflexo mais próximo do Deus que adoro? A quem são destinadas as iguarias divinas?
Um Deus tão poderoso em misericórdia, E que, ao mesmo tempo, é incapaz De levar em conta o contexto em que vive sua criatura, Não me parece nem um pouco confiável.
Deus é irrelevante Se o milagre da justiça social Não acontece de maneira concreta Na realidade social.
Cada um tem o direito de acreditar no que desejar, E tem o dever de aceitar os que pensam diferente.
Que os ensinamentos do Deus de sua adoração O ajudem firmemente a ser sua própria imagem e semelhança, No amor que vai além das meras palavras, Em um amor traduzido para o concreto da realidade.
Pelo menos é o que realmente se espera Dos que querem ser chamados de filhos e filhas de Deus, Que muitas vezes são os mesmos Que vivem em um contexto interminável de via crucis, Onde nós continuamos a repetir o mesmo gesto de Pôncio Pilatos.