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  • Momentos finais de um suicida

    Momentos finais de um suicida

    Era durante a madrugada, o silêncio pairava. Não se entendia por que Aline pensava em suicídio. Sem sinais aparentes, mergulhou em busca de uma possível solução que nunca viria. Não existe suicídio que não venha acompanhado de sinais abundantes ou fluxos enormes de conversas embutidas em metáforas e simbologias carregadas de fortes pedidos de ajuda. Não saia fazendo julgamentos precipitados sem antes conhecer todo o contexto. Somente o contexto que envolve a história da pessoa é capaz de oferecer conteúdo que indique se algo está errado ou não.

    Na vida, nem sempre é como esperamos. Estamos constantemente saindo do nosso controle. Normalmente, olhamos para tudo isso e simplesmente redirecionamos, buscando novas estratégias ou soluções. Somos naturalmente mais resilientes em nos adaptarmos aos acontecimentos. No entanto, não foi isso que aconteceu com Aline naquele dia. Foi difícil para ela admitir que nada ia bem consigo mesma. Como reconhecer que se está com um problema mental e que se precisa urgentemente de ajuda? Como Aline poderia saber que, naquele exato momento, poderia não ter mais volta caso não buscasse ajuda? As vidas dos especuladores de vidas alheias parecem fáceis agora. Naquele momento, tudo o que ela precisava era de apoio.

    Quando suas crises de ansiedade se tornaram frequentes, ninguém estava lá para ajudá-la. Julgavam-na e a condenavam como se tudo fosse uma mera vadiagem, como se suas alegações de estar enferma fossem aberrações para obter um simples atestado médico. Enquanto isso, o problema só crescia. Sentindo-se mal o tempo todo, os remédios já não faziam bem; seus efeitos eram nulos. Pelo contrário, contribuíam ainda mais para ideias perturbadoras. Tudo estava completamente fora de controle, e o terrível dia se aproximava rapidamente. Todos à sua volta seguiam suas vidas, supostamente felizes. Aline, por sua vez, estava há muito tempo sequestrada por sua mente doente. Ela, por si só, nada mais poderia fazer para salvar-se dessa situação.

    Era de madrugada, estava frio lá fora, fazia uns 10 graus. O clima de angústia era ainda pior do que já tinha sido normalizado. Aline morava sozinha no 8º andar. Suas lágrimas de desespero percorriam seu rosto; a dor interior era imensa. Ela estava profundamente impactada por seu próprio sofrimento.

    Em meio a toda aquela angústia, suas células davam os últimos suspiros, levando-a ao seu último e crucial instante de lucidez. Esse momento de pequena lucidez a fez ligar para o porteiro. Ao ouvir a voz de Aline, em meio a choro, desespero e dor, o porteiro tomou ciência da gravidade do momento. Sem perder tempo, colocou o telefone próximo ao rádio que tocava uma música e saiu correndo até o 8º andar. Chegando na frente da porta de Aline, sem demora, meteu o pé na porta, arrombando-a. Seus olhos buscaram por Aline, que ainda estava com o telefone ao ouvido, ouvindo a música. O porteiro se aproximou dela e a acolheu com um abraço forte, transmitindo segurança, enquanto pedia ajuda médica pelo celular.

    Carlos de Campos

    Foto por Steve Johnson em Pexels.com
  • Os fatos dentro do contexto


    Os fatos dentro do contexto

    É armadilha insistir que Deus existe,
    Também é verdadeiro negar sua existência.
    Quem melhor para nos dizer sobre esse fato,
    Além dos fatos que, de fato, nos rodeiam?

    Neste vasto laboratório a céu aberto,
    Existe um contexto,
    Existe um fato,
    Fatos da vida.

    É preciso ter coragem,
    Pausar e olhar a realidade,
    Confrontar a realidade dos fatos dentro do contexto,
    E discernir: quem é Deus em minha vida, de fato?

    Coragem
    Para confrontar a realidade de nossa vida
    Com os "ensinamentos" ditos sagrados,
    Por um momento, ruminar.

    Deus permitiria isso em minha vida?
    Quem está ganhando com a situação em que me encontro?
    Sou o reflexo mais próximo do Deus que adoro?
    A quem são destinadas as iguarias divinas?

    Um Deus tão poderoso em misericórdia,
    E que, ao mesmo tempo, é incapaz
    De levar em conta o contexto em que vive sua criatura,
    Não me parece nem um pouco confiável.

    Deus é irrelevante
    Se o milagre da justiça social
    Não acontece de maneira concreta
    Na realidade social.

    Cada um tem o direito de acreditar no que desejar,
    E tem o dever de aceitar os que pensam diferente.

    Que os ensinamentos do Deus de sua adoração
    O ajudem firmemente a ser sua própria imagem e semelhança,
    No amor que vai além das meras palavras,
    Em um amor traduzido para o concreto da realidade.

    Pelo menos é o que realmente se espera
    Dos que querem ser chamados de filhos e filhas de Deus,
    Que muitas vezes são os mesmos
    Que vivem em um contexto interminável de via crucis,
    Onde nós continuamos a repetir o mesmo gesto de Pôncio Pilatos.


    Carlos de Campos