Estou cansado e preciso dormir. Estou quase morto; a vida quase não resiste mais. É a vida que passa por entre as mãos. Os olhos cansados estão quase se fechando.
Corpo e mente estão desfalecendo, sucumbem pela força da natureza; estão sem forças para reagir, entregues, não se opõem, apenas confiam na sabedoria da natureza que simplesmente os carrega.
Esta é a nossa oportunidade para nos desapegarmos de nossas ilusões, dessas ilusões que tramam contra nós. Como não se opor a essas ilusões?
Tudo é mergulho profundo, é luta e entrega, é opressão que nos sufoca e que também nos faz ver sentido para resistir, para persistir, enquanto seguimos, seguir para um dia vencer.
De dentro de minhas próprias entranhas, eu me encontro; é como se eu tivesse retornado ao útero materno, estou sendo gestado. É a vida sendo concebida novamente.
Da morte à vida, libertação tardia; libertação tardia também é libertação plena. Não importa quando a libertação chegará, o que importa realmente é que, quando chegar, é preciso estar preparado.
Me vejo absorto. Nada parece estável. Preciso de segurança. O solo deixa buracos.
No percurso, destilamos ofensas. Encaramos os nossos próprios medos, sabendo que, lá no fundo, estamos apavorados. Precisamos seguir sem demonstrar inquietação.
Lutar é o que dá sentido para a vida. Internamente, somos tão humanos que cada passo parece uma longa jornada. Tentamos dar os passos mais seguros.
São dias como este que me fazem desejar estar com você — e é normal desejar algo assim. É assim que funcionamos: queremos o que nos gera aquela aparência de tranquilidade. E não há nada de errado nisso. O problema surge quando isso se torna um álibi interno para, diante de qualquer conflito, usarmos como desculpa para pular do barco — seja do emprego, de um relacionamento ou de uma amizade. Há muita gente por aí vivendo nesse modelo de vida.
Desejo e mais desejos — é assim que estamos vivendo: desejando tudo e todos. Desejando… e, quando desejar já não funciona, então exigimos, impomos, para que os nossos desejos mais vis se realizem. É preciso desejar com muita cautela. E já passou da hora de voltar-se para o próprio interior — não como mais um gesto egoísta, mas com a firme atitude de quem vai refletir sobre a própria vida. Sobre essa vida de desejos por desejos mesquinhos.
Em busca de quê você tem pautado a sua vida? Desejos? Que tipo de desejo tem cultivado em sua existência? Deseja uma vida de segurança e tranquilidade? Será mesmo possível viver nesse clima? No que você tem pensado hoje? Ah, bem que poderia existir uma fórmula mágica para suprirmos todos os nossos desejos… desejos egoístas, desejos insaciáveis. Desejo desejar você algum dia — porque essa é a vida de quem ainda não mergulhou em sua própria existência.
Move-se em direção ao desconhecido — esse é o principal fator que leva o ser humano a olhar para além de si mesmo e de sua vida cotidiana.
Deus, quem é Ele? Onde Ele existe? Essas são duas simples questões, entre outras milhares, que de alguma forma pairam na vida de qualquer ser humano, de qualquer raça, crença ou posição social.
Pode ser que você nunca tenha duvidado da existência de Deus, mas, sem sombra de dúvida, é certo que todos nós — uns mais, outros menos — tenhamos feito algum tipo de questionamento a nós mesmos sobre a existência de Deus em algum momento de nossa vida.
Em um mundo repleto de ilusão, de carências de todas as formas e maneiras às quais estamos submetidos… Em um mundo onde o ser humano vive a maior parte de sua vida empreendendo fugas de algum tipo de injustiça…
É legítimo e natural que o ser humano busque refúgio em uma força superior, mesmo que essa força não tenha sua atuação comprovada em prol da humanidade.
O que mais incomoda o ser humano, de modo geral, é ter a percepção de que está, de fato, sozinho — e que toda a sua vida só está sendo garantida graças à sua própria força e dedicação ao trabalho.
E que, até o presente momento, nenhuma força sobrenatural tenha, de alguma forma, contribuído de maneira solidária para que sua vida tenha uma caminhada um pouco mais leve neste mundo de lágrimas, dor e injustiça, com alguns relances de alegria.
O que mais frustra o ser humano em seu íntimo é ter a certeza de que não tem a certeza de que recebeu — ou recebe — o auxílio, em sua vida, de alguma força superior.