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  • Ver é um ato de humildade

    Ver é um ato de humildade

    O mistério não é nada além de cegueira
    Quem está disposto a ver simplesmente enxerga
    E, enxergando, reconhece sua beleza.

    Carlos de Campos
  • Falta saber o quanto nos resta

    Falta saber o quanto nos resta

    Os dias estão cansativos
    Os dias estão tediosos
    Os dias ainda são dias
    Os dias se impõem diante dos nossos olhos.

    Faltam dias para me animar
    Para cada dia existe uma solução
    Faltam dias para faltar
    Falta o que pensar.

    A falta pode fazer falta
    Os dias passam, contando
    Faltam as férias que acabaram
    Faltam dias com dignidade.

    A cada dia é necessário continuar a viver
    Não deixe que o tempo te surpreenda
    Afinal de contas, Dá para ser feliz?

    A felicidade conta em uma vida amargurada?
    Impondo-se sobre as nossas cabeças
    São dias como esses que fazem falta.

    Fazem falta os dias lúcidos
    Logo tudo se organiza
    Infinito é o tempo que não tenho para ser feliz.

    Carlos de Campos
  • Na beleza encontro a minha realidade

    Na beleza encontro a minha realidade

    Indo para São Paulo, me deparei com você, toda a beleza encarnada em uma só pessoa, em um só lugar, em uma só personalidade. Tudo o que eu conseguia fazer era ficar ali, admirando. Naquele ônibus, tudo passou a ser mágico.

    João era um amigo muito próximo. Ao perceber que toda a minha concentração estava naquela mulher, João me cutucou e sugeriu:

    • Vai só ficar olhando ou vai se levantar para falar com ela?

    Não sei por que, mas me faltava coragem.

    • Daqui a pouco eu vou – respondi a João, sem tirar os olhos dela.

    Pensava no que falar, como me comportar e como poderia disfarçar minha timidez quando fosse falar com ela. A timidez tinha tomado conta de todo o meu ser naquela altura. Não queria ser mal interpretado.

    Tudo naquele momento me parecia difícil de executar. Não entendia o porquê, mas só me sentia inferior diante dela, diante da beleza que a personificava. Por que a considerei bela demais para mim? Como eu poderia ter evitado essa conclusão?

    Quando resolvi me levantar para ir até ela, meu despertador começou a tocar. Precisei, então, me levantar para ir trabalhar.

    No final das contas, a minha vida, a minha realidade é essa: durante o dia, trabalhar tanto que sou incapaz de identificar o rosto de alguém; à noite, o que me resta a fazer é sonhar e, no sonho, desejar ver, tocar, sentir o belo que existe para ser vivido e que não consigo.

    Carlos de Campos

  • Quem planta amor colherá discórdia

    Quem planta amor colherá discórdia

    Me impressiona a cada momento
    O desejo de não desejar ser mais feliz
    Momentos que foram tão insignificantes
    Exilado em meus tormentos.

    Desejos insignificantes
    Me fazem sofrer pelo caminho
    Demolindo o pouco de paz que tenho
    Diga-me o que é ser feliz?

    Minha vida é um balde de água fria
    Distante do fogo do amor
    Faço as pessoas ficarem mais longe de mim
    Sou frio, minha alma é gelada.

    Vá até o fogo e se jogue
    Permita que a água se aqueça
    Que a vida triste seja transformada em alegria
    Dando lugar a novos afetos do amor.

    Tudo o que o amor é, é porque eu permiti
    Para que o amor aconteça, é preciso aceitá-lo
    Reconhecendo sua total dependência.

    O momento é de muita paz
    Desejos direcionados para o amor
    Estou disposto a plantá-lo e colhê-lo?

    Carlos de Campos


  • Por que é importante saber?

    Por que é importante saber?

    Importa saber quem é você?
    Que segue vivendo no anonimato?
    Não quer saber por quê?
    Sabe de uma coisa, não quero saber.

    Hoje é só mais um dia normal
    Diferente dos outros que vivi
    Mas, hoje, em especial, é só mais um dia qualquer
    Que em sua normalidade me ensina a viver.

    Dias normais que passam
    Na exaustiva frustração
    Esperando que uma solução venha
    O que só espera nunca vem.

    Importa saber se vou vencer na vida?
    Distante do sucesso, sigo a minha trajetória
    Vida silenciada pela falta de oportunidade
    Hoje é só mais um dia comum, o que importa saber?

    Importa saber por onde o destino está me levando?
    As escolhas que fiz e faço, por onde me levam?
    Que futuro ando construindo?

    Hoje ando sem rumo
    Distante da solução, permaneço
    Nesse dia qualquer, me encontro perdido.

    Carlos de Campos

  • Futuro perdido pela vingança

    Futuro perdido pela vingança

    O instinto se nega a ousar,
    Deixando a desejar,
    Constrói labirinto em sua própria história;
    De mansão a mansão, hoje, mora na rua.

    Morador da periferia,
    Perde a percepção da sobrevivência.
    Homem e mulher da angústia,
    Vida marcada de nobreza.

    Me vejo em um presente sombrio,
    Futuro distante da alegria.
    Cansado dessa vida fodida,
    Sem chance para vencer.

    É impossível ver a beleza que se esconde,
    Dorme por causa da fome.
    Delirante que caminha na rua,
    Vai dormir com dor.

    Filas enormes de gente esfomeada,
    Falta alimentação básica.
    Falta amor ao próximo.

    Fugaz é a nossa vida,
    Perdida em uma galáxia escondida.
    A guerra foi o que escolhemos para nossa vida.

    Carlos de Campos

    Foto por Abd Alrhman Al Darra em Pexels.com
  • Além da Escuridão

    Além da Escuridão

    Morte da vida, enquanto se está vivo
    Isto é a maior afronta
    De uma humanidade triste
    E cheia de contradições.

    Me encontro no fundo do poço
    Em meio às amarguras que me assolam
    Diante de tantas oposições
    É importante saber que para tudo existe um fim.

    Pensamentos que vão e vêm
    Contaminados com doses de depressão
    Angústia que me coloca contra a parede
    Dia após dia, vou sobrevivendo.

    Levo em minhas entranhas dor
    Dor que dói o dia inteiro
    Dor da inveja que vivo revivendo
    Acreditando que a grama mais verde é a do vizinho.

    Finalmente, me encontro com minhas pendências
    No octógono da vida, travo minhas lutas
    Algumas vencidas, outras perdidas.

    A morte em vida pode ser revertida
    Trabalhando uma nova maneira de olhar a vida
    Se entregar sem lutar, isso não pode acontecer.

    Carlos de Campos

    Foto por Mr. krvsn em Pexels.com
  • Memórias de Ellen

    Memórias de Ellen

    Não me cabe dizer o quanto isso fez mal a você
    Ellen mora na mesma cidade que eu
    Uma cidade do interior e, como a maioria, pequena
    Pelas ruas, era muito fácil se encontrar muitas vezes ao dia.

    Ellen e eu pegávamos o mesmo ônibus para ir trabalhar
    Eu esperava ansiosamente todos os dias para observá-la
    Era difícil acreditar que existia uma beleza tão impactante.
    Para mim, Ellen era incrível.

    Intrigante foi aquele dia
    Ellen, já fazia uma semana que não aparecia
    Na parada de ônibus se ouvia
    De tudo um pouco sobre o seu paradeiro.

    Ellen sumira daquela cidade
    Tudo o que eu sabia sobre ela estava em minhas memórias
    Que também já faziam forças para dela se recordar
    Uma construção da minha cabeça?

    Ellen, em minha esquizofrenia, me acompanhava
    Em todos os nossos encontros na parada daquele ônibus
    Na realidade, eu nunca saí desse quarto.

    Já fazem vinte anos que me encontro preso
    Por ter assassinado brutalmente
    Diagnosticado com esquizofrenia, isso não me isenta de culpa.

    Carlos de Campos
    Foto por Ron Lach em Pexels.com
  • Sob a luz da lua

    Sob a luz da lua 

    Ilumina o caminho da minha vida
    Com sua luz natural
    Coroa a noite de maneira excepcional
    Silenciando os desejos secretos.

    Os enamorados festejam em sua presença,
    Os animais noturnos também comparecem
    Sob sua presença hipnótica
    Festejam todos os astros do céu.

    Homenagens lhe são prestadas
    Somos conduzidos pela energia da atração
    O dia já está quase claro
    E as celebrações continuam sem hora para acabar.

    Venham celebrar a vida diante da lua,
    Diante dessa força misteriosa
    Que se revela bela em sua fortaleza,
    Onde ninguém é forte e todos estamos nus.

    O luau é um convite para o amor,
    Entrega do corpo e da alma,
    Onde se experimenta a extasiante força da afeição.

    Desejo estar com você
    Em alguma noite dessas,
    Te amando sob a luz da nossa querida lua.

    Carlos de Campos


  • Silenciosa sobrevivência

    Silenciosa sobrevivência 

    No cômodo ao lado
    Mora a rejeição
    Sempre me observando,
    Bisbilhotando a vida alheia.

    Hoje há cansaço em mim,
    Não tenho interesse em suas opiniões.
    Ando cansado de algo
    Que um dia me aborreceu.

    De mais nada quero me recordar,
    De tudo o que se passou comigo.
    Imploro às minhas memórias, silêncio,
    Por favor, silêncio!

    Memórias que me machucam,
    Atormentam a minha vida.
    Parem, por favor.

    Me ajude a enfrentar esse momento.
    Distante de tudo,
    Sobrevivo!

    Carlos de Campos
    Foto por with Darkshades em Pexels.com