Morte
A morte não é privilégio de alguns
Mas é uma certeza para todos
É a nossa maior paranóia
Nosso medo desde cedo
E, também, um tanto, desejo
Um chá revelação
Da nossa mais profunda covardia.
Covarde é o que somos
Nos escondendo na própria vã esperança
De que ela não nos encontre
O tempo vai passando
E todas as tentativas se esvaem.
Covarde que somos, tememos esse encontro marcado
O inadiável encontro com a morte
Nosso bem supremo
Nosso justo juíz.
Sem tentativas de fugas
Sem adiamento
Sem hábeas corpus
Sem novo agendamento.
No dia e hora marcados
Lá estará ela a nos esperar.
Não existem acordos para adiar esse encontro
Covardes!
Coloquem-se em seus devidos lugares
Vossa vitalidade vai se esvaindo todos os dias
Em nada, suas riquezas lhes serão úteis.
Indignos desta vida, somos todos nós
Não existe, entre nós, nenhum inocente
Somos todos criminosos
Perdemos a conexão com o planeta
Com a própria vida que emana dessa simbiose.
O não como objetivo de vida
Um bem que faço para mim
Despir-me do que me impede
Ao que me pedem
Que eu possa, solenemente, dizer não.
Para seguir feliz na vida
Com a minha consciência leve
Por ter conseguido superar
A minha incapacidade de dizer não.
Em meu novo ciclo
O desejo foi reprimido pelo sim autoritário
Sim, para fazer algo que não queria fazer
Para tão somente viver das incoerentes aparências.
Minha emoção vivia em frangalhos
Dominado pela educação do século XIX
Sim, mesmo que não quisesse
Sim, para não ser grosseiro.
Longe de ser repetitivo
Dizer "sim" pra tudo, não nos torna melhores
Um "sim" pode ser, por demais, desgastante.
O meu sim, de agora em diante
Será pautado pela reflexão
Para que a resposta seja sempre um "não" verdadeiro.
Carlos de Campos
Aqui, no planeta Terra...
Jogam-se pedras em mulheres
Distribuem-lhes ofensas gratuitas
Cultivam-lhes ódio e rancor.
Aqui, no planeta Terra…
A mulher é um peso morto
Objeto de consumo, para o prazer sexual
Um ser inferiorizado, por sua própria raça.
Aqui, no planeta Terra...
Existe uma riqueza
Um tesouro, diante de nossos olhares
Mas que, muitos, são incapazes de reconhecer
Um verdadeiro diamante, que Poucos homens são capazes de valorizar.
Aqui, no planeta Terra...
Envio minha solidariedade a todas as mulheres
Meu pedido de perdão pela cegueira que, todos os dias, gera mais e mais violência
Pelo medo, que, homens frágeis, nutrem, pela tamanha força dessas mulheres.
Perdão pelas injúrias proferidas no passado
Cultivadas, ainda, no presente
Pelas ofensas proferidas, futuramente.
Aqui, no planeta Terra...
Pela lei, que protege homens violentos
Pela justiça, tão omissa
Pela sociedade, que só tripudia da vítima
Peço-lhes perdão.
Aqui, no planeta Terra...
Pelo sangue derramado de Marielle, Maria, Inês, Rute...
Por todas que, clamam por justiça
Por milhares de mulheres em cárcere privado
Por mais de milhares, em cárcere psicológico
Por outros milhares, agora, sendo violentadas, de alguma forma
Por todas as nossas mulheres Cegas, surdas, mudas, inexistentes.
Por todas as mulheres do Brasil
Por todas as mulheres vítimas da nossa indiferença.
Por todas as mulheres !
Aqui, no planeta Terra...
Um poema para repudiar estes trastes inconsequentes
Num mar de sangue e violência masculina
Contra o tesouro feminino
Um repúdio a todo e qualquer ato de agressão contra estes seres extraordinários.
Carlos de Campos
Medo de morrer
Temer a morte
Limita o viver bem
Impedindo colhermos as flores pelo caminho
Porque não existe vida em meio ao medo.
Tudo se transforma em incertezas
Incertezas da vida
De uma vida que sempre foi agredida
Por não saber lidar com o medo que atrofia.
Vem!
Procure comigo, amigo
Na minha insignificância
Que não encontra solução para esse medo.
Mãe que acolhe
O filho que sofre
Os medos existenciais
Acolhe.
Acolhe os que vivem sozinhos,
À margem
Na desilusão
No sofrimento que o acompanha.
Sofrimento que diminui a vida
Acumulando toneladas
De um insistir das pernas, que já não mais obedecem.
Permaneço onde estou
Jogado, com fome e muito frio
Esquecido pela lembrança vaga
Porque, parca é a vida que perdi para Deus.
Carlos de Campos