A vida é dada por Deus Soprando pelas narinas do ser humano em barro O vento engata a nossa existência Essa nossa pobre existência.
Deus demonstrando sua eterna misericórdia Acha por bem nos jogar nesse mundo cão Sem o mínimo de noção Construímos o nosso caráter entre erros e acertos.
Entre guerra injustificadas Caminhamos em pleno emburrecimento Procurando sempre cultivar o nosso ressentimento Em cultos da nossa própria imagem divina.
O ser humano está perdido Fundido sua psique em si Cegos da realidade por sua imbecilidade Preferimos loucuras monstruosas do que um coração pacificado.
Um coração magoado bate em nosso peito Do barro nós viemos e na lama permanecemos Olhamos à nossa volta e nos vemos como somos violentos Somos os agentes do mal.
A mão desocupada para que serve? Para sair da operação sigilosa? Para resgatar a própria integridade? A mão que nunca fala para que serve?
Detritos amontoados em lago Saudoso era o tempo sem a tecnologia Em que a mão operava sem questionamentos A mão que é proibido invocar.
O vento do sul nos traz a esperança orquestrada pela mão forte e invisível Que no estalar dos seus dedos nos coloca de joelhos E nos julga por seu tato decadente.
Olhe para essa mão pesada Que extermina essas pobres formiguinhas Que não poupa nem as plantinhas Por puro ódio de sua própria existência.
Secretamente me encontro No mais profundo do seu inconsciente, Sem luz, Sem água.
Alimentando-me, dia e noite, dos seus pensamentos, Especialmente dos seus pensamentos mais arraigados. Sou um devorador de almas, Retiro tudo o que você é.
Estou cansado e preciso dormir. Estou quase morto; a vida quase não resiste mais. É a vida que passa por entre as mãos. Os olhos cansados estão quase se fechando.
Corpo e mente estão desfalecendo, sucumbem pela força da natureza; estão sem forças para reagir, entregues, não se opõem, apenas confiam na sabedoria da natureza que simplesmente os carrega.
Esta é a nossa oportunidade para nos desapegarmos de nossas ilusões, dessas ilusões que tramam contra nós. Como não se opor a essas ilusões?
Tudo é mergulho profundo, é luta e entrega, é opressão que nos sufoca e que também nos faz ver sentido para resistir, para persistir, enquanto seguimos, seguir para um dia vencer.
De dentro de minhas próprias entranhas, eu me encontro; é como se eu tivesse retornado ao útero materno, estou sendo gestado. É a vida sendo concebida novamente.
Da morte à vida, libertação tardia; libertação tardia também é libertação plena. Não importa quando a libertação chegará, o que importa realmente é que, quando chegar, é preciso estar preparado.
Ainda que o desejo seja só mais um desejo. Tudo o que temos no final são só desejos. Sonhamos com um mundo mais justo, e o que encontramos são só injustiças que projetamos.
Os nossos sonhos anulam os nossos desejos. Somos feitos da poeira da injustiça, da rivalidade estratégica, da dominação do mais forte. Tudo o que temos em termos de direitos e garantias é ilusão.
Somos seres viventes à base de ilusão. Somos desejos e sonhos não realizados. Somos os dominados e os dominadores, somos a naturalização dessas relações. Somos e queremos ser assim.
Se algum dia estivermos dispostos a enfrentar as nossas causas interiores, nos rebelarmos contra as nossas incoerências, quando tivermos a coragem de dialogar com a nossa essência, é possível que o mundo melhore.
No paradoxo da nossa existência sempre nos encontraremos; cada um de nós carrega essa profunda contradição, contradições em cima de contradições; essencialmente, tudo em nós é contraditório.
Um dia encontraremos o caminho onde a doce ilusão será subjugada pela dura realidade; neste momento, é preciso entender que não sobrará contradição sobre contradição.
Carlos de Campos
Foto por Paul Blenkhorn @SensoryArtHouse em Pexels.com
Sem limites para voar. Voamos para bem longe. Voamos sem nos despedirmos.
Estamos voando sem rumo, sem direção nos perdemos. Na loucura nos encontramos, aqui estamos sem perceber.
Voamos para bem longe, tão longe que nos perdemos. Nos perdemos no horizonte, na volta para casa.
É no voo noturno que me realizo. Na contemplação da lua me divirto. Sem direção, mesmo assim me arrisco, arrisco voar pela liberdade que o voo me traz.
Estou à deriva, perdido me encontro. Me consolo, sozinho me encontro.
Voar é arriscado. Mesmo diante dos riscos, voar faz sentido. Voar faz parte da natureza humana. Voe o mais alto e o mais longe que puder.
A nossa fidelidade busca compromisso, Impossível para os dias de hoje, Insustentável, para dizer o mínimo. A nossa fidelidade é vacilante.
Imagine o fluxo do desejo, O preocupante demônio, As fábulas inventadas para te seduzir, Percorrendo, dia a dia, o seu corpo.
Em cada corpo existe um segredo Que anseia ser descoberto, Que precisa ser manipulado com as mãos. Não beijo o lábio que guarda este segredo.
Na verdade, o segredo busca ser revelado. É trabalhoso, essa busca. O que nos aguarda é muito prazeroso. A postura valente de quem busca sempre é recompensada.
Mova o lacre! E perceba o destino sendo traçado, As leis naturais se organizando. Ali embaixo existe sempre um mistério a ser descoberto.
Negar é trair o outro, É ser infiel aos desígnios naturais. Dose apurada do mais puro desejo — Sórdido é ter que continuar a guardar esse segredo.
Carlos de Campos
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