Lá pelas bandas que me exploram, Eu vejo até o que Deus duvida. Eu vejo a miséria sendo lucrativa, Eu vejo a riqueza superfaturada.
Nem a pior legião demoníaca é tão desonesta Quanto a crueldade exercida pelo capitalismo. Tudo o que toca vira pó, É espantoso saber que tem muita gente que concorda.
Um império pessoal ou de um país, para sobreviver, Precisa impor suas condições, sejam quais forem. Doa a quem doer, O objetivo é sempre o lucro a qualquer custo.
Lucro exorbitante para poucos, Miséria absoluta para muitos. O terror inflacionário é implacável, Consumindo vidas pelos juros.
Lugar onde nada prospera, Enormes são as filas da inadimplência, Onde a maioria não consegue se desenvolver. Lugar onde se lucra com a pobreza.
Movimento de desconstrução do capitalismo, Que escancara os altos juros. Movimento de desconstrução do capitalismo, Que denuncia que o pobre ainda tem trabalho forçado.
Multidões passam fome, No cotidiano a pobreza é extrema. O trabalho é análogo à escravidão, As pessoas ainda vivem produzindo riquezas para terceiros.
O silêncio dos oprimidos clama por justiça social. A “liberdade democrática” precariza. A taxação comercial é a nova pandemia, Mas quase ninguém se importa.
Meu desolado canto é solitário. É inútil o canto que eu canto. Canto o canto dos injustiçados, Canto o lamento de minha alma empobrecida.
Meu lamento vem de um coração miserável, De um corpo maltratado pela fome e pelo frio, E que, quando doente, encontra um sistema perdido. Meu canto canta por uma boa morte.
É impossível ter desejo de justiça quando se tem o monopólio econômico a seu favor, quando o sol nasce para todos, mas maltrata uma parcela da população mais que as outras. É sempre a mesma conversa, e me parece que continuamos no mesmo lugar: solitário e desiludido. Conversas que não mudam comportamentos e comportamentos que não querem ser mudados.
O mundo precisa de uma sociedade consciente. Consciência, esse é o nosso grande problema: consciência livre de ideologia não existe. Nossa busca pela consciência é genuína, até que atolamos no lamaçal de conceitos viciados, conceitos que nos aprisionam e não nos permitem avançar.
Quem sou eu diante desse mundo de ilusões? De desejos não correspondidos? Quem, do topo de sua mediocridade, é capaz de ver além do que lhe é imposto para ver? Sou quem não quero ser, sou quem me determinaram ser, sou a ilusão de dias felizes, fruto do pecado, das almas escolhidas de um deus construído.
Desde criança, fui ensinado a ver o mundo como os adultos o viam. Cresci e continuo vendo somente pelos olhos de outras pessoas; vejo o mundo pelos olhos de quem detém o poder político, econômico, religioso e midiático. Meus olhos e minha vida estão a serviço dos poderosos.
É irrelevante tentar resistir. Desejos são controlados. Minha existência aqui neste planeta apenas repercute os sonhos e desejos que não são os meus; luto as lutas que não foram escolhidas por mim.
Banido de toda a corte real, meu existir subsiste no submundo, onde luto as lutas que não foram escolhidas por mim. Essa é a realidade, pelo menos é a realidade que flagela meu corpo e mente o tempo inteiro. Realidade que devo suportar. Em uma realidade de cartas marcadas, não há muito o que fazer.
Meus sonhos e desejos são impossíveis de se realizar. Movimento-me para, quem sabe, algum dia, enfim, superar a lavagem cerebral à qual fui exposto. Sonho por sonhar, sonho desejando acordar.
Quem sou eu depois de ontem? O que fui capaz de ver além da escuridão? Dos desejos e sonhos que foram roubados? Em meus dias que se passam, passa também a esperança de um dia estar livre.