Ouve o passado gritar Na antessala do desespero, No agitado mar da vida, Ouve…
É grito que, ao longe, posso ouvir. É vida desesperada. Quem mais pode ouvir? É preciso ter ouvido atento.
Desesperado, caminha sem rumo. É vida sendo tolhida, desesperado caminho.
E, na margem do rio, avisto as memórias fugazes correndo contra a correnteza, como peixes em época de piracema.
Ouço, no reflexo da minha imagem, barbaridades sem fim. Desanimado, deixo essa marca, a marca brutalizada de mim.
Sonhos, desejos que vêm e que vão… Vêm nas belas manhãs e se vão ao cair do dia. Só me resta ouvir essa sinfonia.
Nas águas desse rio vou mergulhar. No mais tardar da vida vou mergulhar. Ouvindo as águas baterem nas pedras, vou mergulhar. No auge do desespero, me permito relaxar.
Ele não oferece redenção — oferece lucidez. Ele não consola — denúncia o preço de sonhar. Se ainda temos o poder de dizer o que ninguém tem coragem de verbalizar, então 'Me vejo sonhando acordado' é esse poema — mesmo que precise pegar todos os dias os vagões de metrô lotados, onde nós carregamos o peso dos sonhos não realizados.
Me vejo sonhando acordado
No Atlântico Norte eu avistei Dezenas de possibilidades Que eu nunca experimentei. O que devo fazer?
Sair em busca de um sonho, Sonhar enquanto se está dormindo, Na esperança de que tudo seja realidade. Vejo as possibilidades, mas não tenho como alcançá-las.
Momentos como esses são raros, Requerem de nós meios para realizá-los, Do princípio à realização como um fim pleno. Quem pode sonhar com algo tão grande?
Me vejo sonhando um sonho sozinho, Distante de qualquer sucesso. O que devo esperar da vida? O que esperar de ações sem incentivos?
Negar a impossibilidade de realizar um sonho é difícil, Como também é difícil sonhar com o que não se pode realizar. Os sonhos são o que são, Não são nem bons nem ruins.
Sonhar acordado implica em sonho irrealizável. Sonhar exige ter uma boa carteira financeira. Do lado do Atlântico Norte eu vi… Insônia de um sonho não realizado.