Tag: poesia crítica

  • No lamaçal morre a esperança


    No lamaçal morre a esperança

    Estímulos da turbulência
    se aproximam em silêncio.
    Antes que percebêssemos,
    estamos perdidos.

    Na epopéia desse martírio,
    sofremos o suplício
    dos dias aos quais não demos atenção.
    Sofro a antecipação desses dias terríveis.

    Grita a alma atormentada:
    destino implacável.
    Imperdoável foi a nossa omissão.

    Fugitivos dos dias sombrios,
    alma suja por essa lama,
    lama da eterna corrupção.

    Carlos de Campos
    Foto por Tima Miroshnichenko em Pexels.com
  • O declínio de um mundo doente


    O declínio de um mundo doente

    Orquestra de um mundo desafinado,
    jubilosos e inconsequentes.
    Vê: nada mais se pode fazer.
    É o declínio pré-organizado.

    O anoitecer da verdade chegou.
    Em sono profundo repousa,
    em parada respiratória se encontra.
    Vê o declínio diante dos teus olhos.

    O dia está suspenso.
    É o momento de refugiar-se.
    Nada se pode fazer.

    O declínio levou pessoas a se tornarem zumbis.
    Diante do terror,
    existe a eterna agonia.

    Carlos de Campos

    Foto por cottonbro studio em Pexels.com
  • Um marginal é só mais um marginal


    Um marginal é só mais um marginal

    Os delírios de grandeza
    Ecoam em minha alma
    Eclodem em mim
    A minha essência marginalizada.

    Essa é a minha verdade
    É a verdade que compõe a minha história
    Essa é a minha alma
    A alma de um marginal.

    Sou o que não nasci para ser
    Sou o fruto da violência familiar
    Sou o descaso das políticas públicas
    Sou o que me instigaram a ser.

    É ilusão, e está errado,
    Atribuir à minha alma marginalizada
    Como único culpado.
    Todos nós somos responsáveis.

    Estou sendo julgado por sua omissão
    Por meus delírios de grandeza
    Pela corporativização do sistema
    Por meu endereço, minha cor e minha conta bancária.

    Grande será o dia
    Em que justo será o julgamento
    Em que meus delitos, e só os meus delitos, serão julgados.
    Até que isso aconteça, continuo sendo só mais um marginal.

    Carlos de Campos
    Foto por RDNE Stock project em Pexels.com
  • Em meio às frustrações, vale a pena sonhar?



    Em meio às frustrações, vale a pena sonhar?

    Os sonhos são ilusões?
    Ilusões são passageiras?
    Somos iludidos em acreditar?

    Qual é a tua ilusão preferida?
    No RPG da vida, quem você é?
    É vida e sucesso ou destruição e morte?

    É ilusão que jorra de nossas entranhas,
    entranhas contaminadas pelas desinformações,
    pelo ódio gerado por tantas frustrações.

    Frustrações de um mundo que foi confrontado:
    realidade versus o que eu gostaria que fosse.
    O que é a realidade?

    Sonhar, na minha realidade, vale a pena?
    Vale a pena sonhar neste momento?
    Sonho em meio às minhas frustrações.

    Os dias passam cada vez mais lentos,
    cheios de inconclusões,
    desguarnecidos de qualquer juízo.

    É vida miserável,
    é poder e opressão,
    é sonho, realidade e muitas frustrações.

    Carlos de Campos
    Foto por Arshad Sutar em Pexels.com
  • As nossas vidas não são preciosas



    As nossas vidas não são preciosas

    O precioso valor da vida,
    vida que é constantemente ferida
    por nossa existência vazia,
    que insiste em resistir ao frio.

    O frio da indiferença,
    que nos condena,
    nos massacra —
    frio da ignorância.

    A vida é preciosa.
    A vida de quem?
    A vida que vive de restos de dignidade?
    A vida que não se permite ser feliz?

    O que é a vida?
    É a vida encontrada na latrina?
    É a vida que vocês querem que eu viva?
    Ah! O que eu sei
    é que a minha vida não é preciosa.

    Não existe dignidade onde há tanto desprezo,
    onde ser indiferente faz toda a diferença —
    e é sempre o melhor jeito.
    A vida é preciosa, sim!
    Só que é a vida dos 1%.

    O nosso silêncio nos trouxe até aqui,
    onde mais de 90% prefere a indiferença.
    É a nossa marca registrada:
    ser uma nação submissa,
    que só vive reclamando,
    mas prefere levar a vida
    na mais pura omissão.

    Carlos de Campos
    Foto por Quang Nguyen Vinh em Pexels.com
  • Coletivo em estado desfragmentado




    Coletivo em estado desfragmentado

    Modo “desisto”:
    é como estamos.
    É fluido em sensações —
    as próprias sensações.

    É fluido em sentimentos —
    nos próprios sentimentos.
    É a incerteza sendo incerta
    no instante em que estou certo.

    Instantes instáveis
    da verdade que nunca foi verdade,
    dos desejos sem desejos,
    em que tudo está instável.

    Dos que se acham donos do mundo,
    do mundo perdido entre destroços —
    destroços de uma vida infeliz,
    feliz pelo fracasso.

    Instável!
    Certo de que tudo segue o seu destino:
    instinto faminto,
    instável formidável.

    Certo de que o mundo está fracassado,
    ferido de morte
    pela nossa dúvida.
    Coletivo fluido —
    é o que nós somos.

    Carlos de Campos
    Foto por cottonbro studio em Pexels.com
  • Não é mais uma mulher, é a regra do machismo





    “Não é mais uma mulher, é a regra do machismo” é um poema que transcende a estética para se tornar denúncia. Aqui, cada verso é um passo em direção ao colapso — não só do corpo da personagem, mas de uma estrutura social adoecida. Um texto que precisa ser lido com o coração aberto e a consciência alerta.



    Não é mais uma mulher, é a regra do machismo

    Impaciente…
    Dirige-se ao balcão do caixa.
    Está com pressa,
    E a fila é enorme.

    Impaciente, fila enorme,
    Começa a passar mal.
    Seu corpo pálido e fraco
    Desaba na fila daquele supermercado.

    A ambulância chega.
    A mulher, ali mesmo, recebe os primeiros socorros.
    É preciso levá-la com urgência para o hospital:
    É mais grave do que parece.

    É vida ou morte!
    É sangramento interno.
    Os paramédicos correm contra o tempo.
    É vida ou morte!

    O silêncio do centro cirúrgico
    É interrompido pelo “piiiiiii” do monitor cardíaco,
    Um som específico que revela
    Que a vida se esvaiu.

    Os médicos nada mais podiam fazer.
    Um tiro nas costas perfurou seu pulmão.
    Foi alvejada na fila do supermercado
    Pelo próprio filho.

    Carlos de Campos
    Foto por Charlie Rock-driguez em Pexels.com