É corrida às cegas, cega como nossa ilusão. Quando percebemos, tudo se foi, foi com a mesma rapidez com que chegou.
Morrer é o caminho natural da vida, de uma vida que insiste na rebeldia, na rebeldia que só reproduz caos, caos de uma vida cega pela ambição.
Não é minha responsabilidade salvar o mundo. O mundo é um ser vivo que sabe se proteger. Cada pessoa sabe sobreviver, e cada escolha tem a sua consequência.
O que aconteceu com a gente? A gente que era gente, e agora somos que tipo de gente? Agentes do caos é o que somos?
O que estamos esperando? Quando retomaremos nosso equilíbrio elementar? A nossa capacidade de nos reorganizar? De investir mais em princípios e menos no caos?
Liberdade é a sensação de leveza. Mesmo diante do caos, se permanece leve. Nas contradições da vida, se mantém em equilíbrio. Na morte, se encontra com a vida.
Quem sou eu diante do absurdo do meu reflexo? Feliz no instante egoísta da própria limitação. O medo é encorajado pelo instante duvidoso. Sou a decepção dos triunfos não alcançados de um dia a mais, fadigado. Sou a beleza da plena lamúria que um dia ousou se rebelar dos instantes perfeitos; só me restou a imperfeição. Cada dia é um dia a mais de morte e ressurreição.
Existe em mim amor, ainda que turvado por meu egoísmo? Por minha grandeza sustentada pela areia? Existe um lugar pouco conhecido, quase esquecido por mim; é aí que a força poderosa do amor vive, em um cômodo de um metro quadrado, sem luz, sem água, sem dignidade, esquecido por você para que morra de frio na mais pura e intensa solidão.
Em artesanato, esbocei a minha perigosa relação de queda, como um anjo perdido, cheio de ambição e certo de que irei falhar. Existe um medo da grandeza; é como se fosse querer me engolir. Nada mais faz sentido quando o que sinto não faz parte da minha realidade. É como se eu fosse o eu de ontem, o eu de um passado distante, que só observa e não faz mais nada.