Tag: vazio existencial

  • Na medida em que adormeço



    Na medida em que adormeço

    É o vento quebrando nas folhas das árvores. É a solidão deitada no vazio, música insistente para a sua mente. Abraço esse sentimento que já é tão meu.

    Carlos de Campos


  • Os indeléveis passos para a morte



    Os indeléveis passos para a morte

    Nada impede que você deixe o amor falar,
    sair para respirar um ar fresco
    e sentir, em seu peito, o seu aconchego.
    Nada o impede de tentar.

    Tentar superar os seus medos,
    medos que nem fazem parte de sua história,
    mantendo-se firme diante dos burburinhos da vida
    e podendo sentir, em seu peito, esse aconchego.

    Quem nunca se decepcionou com alguém?
    Quantas foram as ilusões já sentidas?
    Passou deixando tudo como terra arrasada,
    e seguir acreditando se tornou insuportável.

    São as dores de uma vida maltratada,
    vilipendiada em todos os seus direitos,
    inclusive no direito de amar.
    Amar e ser amado… que dificuldade.

    Singulares são os afetos
    que afetam a todos nós.
    Singulares são as dores que movem os corações.
    Singulares somos nós, com os nossos universos em rota de colisão.

    Tudo o que vive e respira alguma vez já amou,
    diluímos quem éramos para o outro
    para o amor acontecer.
    No final, só restaram duas almas vagando vazias.

    Carlos de Campos
    Foto por Vasily Kleymenov em Pexels.com
  • Na imensa travessia, me perco de você

    Na imensa travessia, me perco de você

    No inevitável, você surge.
    No silêncio, eu falo.
    Não faz sentido: no êxtase, nós nos desencontramos.
    Puro desequilíbrio.

    Desisto no alto-mar da vida,
    no mais profundo de minha alma,
    no milagre que nunca veio.
    Sou a mansão dos mortos-vivos.

    Perdido em pensamentos,
    me vejo suspenso,
    sem destino,
    eu — nessa inconformidade.

    O vento toca o meu rosto.
    Me entrego a essa paz,
    uma paz tão retraída,
    tímida de amor.

    Imensidão de um vazio sem fim,
    tormento de uma cabeça desintegrada.
    Sem conexão, seguem a alma e o corpo:
    fim de um ciclo virtuoso.

    O mundo muda e tudo absorve.
    O destino cria sentido,
    pálido e palpável.
    Urge uma longa transformação.

    Carlos de Campos
    Foto por 3D Render em Pexels.com
  • Sou a incompletude de nossas diferenças



    Sou a incompletude de nossas diferenças

    Aos dias, o descanso.
    O descanso para o corpo.
    A mente se desconecta,
    o íntimo não descansa.

    Encontro-me separado.
    Distante de tudo, estou em um vazio,
    conectado com o sofrimento,
    meu relacionamento mais próspero.

    Urge te encontrar,
    para, desse encontro, voltar
    à origem do amor.

    Se o dia passar, sei que vou te encontrar.
    Com força, abraçá-la,
    sabendo que o amor venceu novamente.

    Carlos de Campos
    Foto por Markus Spiske em Pexels.com
  • No peito bate um vazio

    No peito bate um vazio

    Na manhã desta segunda-feira, sem que eu soubesse de nada, ele foi embora. E com ele, levou minha filha.
    Em mais um ato canalha e covarde, ele ainda orquestrou o sequestro dela. Nada posso fazer além de chorar.

    Sou alcoólatra. Estou desempregada. Passei a maior parte da minha vida morando entre uma calçada e outra.
    Em que mundo eu ganharia a guarda da minha filha? É um jogo perdido. E agora? Que rumo devo tomar na vida?
    O único fio que me segurava aqui acabou de se romper.

    Vago pelas ruas na esperança de reencontrar minha filha.
    Bêbada, ando meio quarteirão por dia. Quando paro, minha mente tenta me trazer de volta à lucidez.

    É difícil para mim viver sóbria, porque, ao ficar sóbria, sou levada a verdades que me machucam demais.
    A realidade é dura demais para mim.
    Preciso me manter afastada dela — e, alcoolizada, é o melhor que posso fazer por mim mesma.

    Nos meus poucos dias de sobriedade, martela no meu peito a dor de não ter conseguido ser mãe.
    A culpa por ter me deixado levar pelo alcoolismo me consome.
    Quem sou eu além de uma andarilha? A noite mal chegou e cá estou, completamente bêbada.
    Há uma tristeza pairando no ar — bem mais poderosa do que em outras vezes.
    Desta vez, até alcoolizada consigo senti-la.
    Ela rasga o meu peito com um vazio descomunal.
    E eu não tenho para onde correr.

    Carlos de Campos

    Foto por Emre Y. em Pexels.com
  • Desejos insondáveis

    Desejos insondáveis

    São dias como este que me fazem desejar estar com você — e é normal desejar algo assim. É assim que funcionamos: queremos o que nos gera aquela aparência de tranquilidade. E não há nada de errado nisso.
    O problema surge quando isso se torna um álibi interno para, diante de qualquer conflito, usarmos como desculpa para pular do barco — seja do emprego, de um relacionamento ou de uma amizade. Há muita gente por aí vivendo nesse modelo de vida.

    Desejo e mais desejos — é assim que estamos vivendo: desejando tudo e todos. Desejando… e, quando desejar já não funciona, então exigimos, impomos, para que os nossos desejos mais vis se realizem.
    É preciso desejar com muita cautela. E já passou da hora de voltar-se para o próprio interior — não como mais um gesto egoísta, mas com a firme atitude de quem vai refletir sobre a própria vida. Sobre essa vida de desejos por desejos mesquinhos.


    Em busca de quê você tem pautado a sua vida? Desejos? Que tipo de desejo tem cultivado em sua existência? Deseja uma vida de segurança e tranquilidade? Será mesmo possível viver nesse clima? No que você tem pensado hoje?
    Ah, bem que poderia existir uma fórmula mágica para suprirmos todos os nossos desejos… desejos egoístas, desejos insaciáveis. Desejo desejar você algum dia — porque essa é a vida de quem ainda não mergulhou em sua própria existência.

    Carlos de Campos

    Foto por Bernardo Vosgerau em Pexels.com
  • Nada é como antes

    Nada é como antes

    Não bem.
    Orgasmo mental,
    desejo incontrolável
    de olho.

    Em nada vejo,
    nada sinto,
    nada sei.
    Orgasmo mental.

    O instinto se rebela
    na contradição de uma vida
    desajustada, ferida —
    promessa de vazio.

    Instinto que se rebela
    no esconderijo da ferida
    de uma vida promíscua.
    Em nada me vejo.

    Orgasmo mental.
    Dê-me as suas entranhas
    para que eu revele a sua inocência
    de uma vida machucada.

    Cabe a você, meu bem,
    me impedir
    e opor-se, em meu ouvido,
    às loucuras de uma mente desequilibrada.

    Carlos de Campos
    Foto por cottonbro studio em Pexels.com
  • Há um clima pesado na atmosfera do mundo. Ganhar e perder a vida se resume a isto.


    Este poema-reflexão mergulha fundo na sensação universal do vazio existencial, explorando o peso do sofrimento e a busca constante por sentido em um mundo marcado pela dor e pela injustiça. Com linguagem acessível e forte impacto emocional, a obra convida o leitor a uma viagem filosófica sobre a origem da consciência e o conflito entre esperança e desespero.
    Uma leitura essencial para quem busca compreender melhor o próprio lugar no mundo e os dilemas que moldam a experiência humana contemporânea.



    Há um clima pesado na atmosfera do mundo. Ganhar e perder a vida se resume a isto.


    No princípio da vida, existia um lugar onde encontrávamos conforto e segurança. Neste lugar, só eu e minha esperança coexistíamos. Mas, mesmo nesse lugar belo e confortável, eu me perguntava: Onde estou? Para onde vou?

    Dia após dia, na medida em que ia se formando a minha consciência, os meus questionamentos só aumentavam e iam se tornando cada vez mais intensos. E, com eles, os medos e as angústias me dominavam. O desejo de querer saber era terrível.

    Em dias “normais”, o desejo era mais intenso, essa minha “loucura” de querer saber qual era o sentido da minha vida. Era intrigante constatar que, desde a minha concepção até o meu nascimento, tudo o que experimentei e experimentava era só dor e sofrimento, com pequenos momentos de alívio que chamamos de felicidade.

    Em um dia mais tranquilo, eu vi o ódio, a fome, o genocídio, a injustiça — só para citar alguns — arrasarem livremente o mundo, e ninguém fazia nada para conter. Onde estava a lógica nisso tudo? Nascer, crescer, só para sofrer e ver os outros sofrerem? Quem preferiu a dor em vez do amor? A fome em vez do prazer?


    Eu sou só mais um, em meio a outras bilhões de pessoas que carregam em seu peito essa brasa flamejante, que, com persistência, nos queima a todo instante. Essa profunda marca nos interroga a todo momento sobre o que estamos fazendo aqui.

    Aconteça o que acontecer hoje de bom ao longo de seu dia, o que estamos fazendo aqui continuará ecoando dentro de você, e nada poderemos fazer sobre isso. E tudo isso, querendo ou não, influencia o nosso comportamento e decisões diariamente. O vazio existencial é assustador.

    Carlos de Campos
    Foto por Pixabay em Pexels.com
  • Silêncio do meio-dia

    Silêncio do meio-dia

    O que está se referindo o autor quando diz: “Está frio, mas é o silêncio que me incomoda”?

    O ser humano, muitas vezes, se vê jogado em crises existenciais — crises que, quando bem aproveitadas, nos levam a uma evolução mental completa.


    Gás lacrimogêneo
    No pensamento conturbado
    Estranha beleza me invade
    Infiltraram-se em minha mente.

    Destemido, segue vivendo
    Lutando em lutas que não acabam mais
    Quem nasce para viver assim?
    Meus pensamentos estão confusos.

    O dia está permeado de silêncio —
    Silêncio que rompe a confusão
    Observo, e tudo me parece normal
    Está frio, mas é o silêncio que me incomoda.

    É um silêncio perturbador,
    Excitante…
    Nos prende em expectativas
    É um incômodo cortante.

    Estranha sensação,
    Inquietante está esse dia
    O sonho se evadiu,
    Restou para nós a desilusão.

    Há uma sensação forte de tragédia no ar
    A noite engoliu o meio-dia
    Tudo é silêncio…
    É um silêncio que incomoda e constrange.

    Carlos de Campos
    Foto por Lucas Pezeta em Pexels.com