• Incêndio em corpos e mentes cansados



    Incêndio em corpos e mentes cansados

    Já se pode ver
    o imenso caos,
    destruição e risco.
    Todos nós corremos perigo.

    Estamos à beira do precipício
    e damos de ombros para a morte.
    Consigo ouvir os gemidos:
    é um tempo terrível.

    É terrível o que eu vejo:
    dor, morte e solidão.
    É a ilusão sendo desfeita,
    a realidade dando um soco na cara.

    Há sangue, vísceras pelo caminho,
    incredulidade em meio ao desastre.
    Há ressentimento torturante nas pessoas,
    discurso de ódio no coração.

    É violência em plena luz do dia,
    carros sendo queimados,
    morte…
    silêncio de um inocente.

    Por toda a cidade, só a desolação,
    desejo de sangue no ar,
    enxofre regado à orgia,
    sexo explícito na avenida.

    Carlos de Campos
    Foto por Tima Miroshnichenko em Pexels.com
  • Sorte é florescer no jardim da própria morte

    Sorte é florescer no jardim da própria morte

    O sol
    pôs-se diante dos meus olhos,
    dos mesmos olhos que viram a saudade
    sem saber das cores
    de uma vida sem flores,
    que floresceu na morte —
    morte que desabrocha a nossa sorte,
    sorte de não se ter o amanhã.
    É importante o dia da morte,
    que floresceu em um dia de sorte.

    Em dia de sorte,
    provamos da própria morte,
    da sorte que gera a ilusão
    de sermos eternos —
    eternos até florescer a nossa própria sorte.
    Caímos na própria teimosia:
    eternos até o grande dia,
    dias de paz,
    de um silêncio sepulcral.

    Flores que florescem a todo tempo,
    flores da morte,
    da sorte,
    da insensibilidade com a vida —
    vida temida.
    A morte deu sorte:
    sorte de florescer na própria morte.

    Carlos de Campos
    Foto por u6d6a u90ed em Pexels.com