Abro a janela com o desânimo estampado na alma. Na escuridão da noite, eu me refugio. Da mente atormentada tento me afastar, e no vazio encontro o meu sentido. Suave é o peso que devo carregar. É suave nos sufocar constantemente. De um dia para o outro, me prendo ainda mais.
Um mar de mágoas me submerge. Me afogo, esperneio até me cansar. Afundo devagar, muito devagar. Aos poucos, não sinto mais meu corpo. Esse antro de preocupações, desejos assombrados, volta para a superfície. Tento respirar os tóxicos existenciais, a amargura universal estampada em nossa cara, a cara de iludidos. Me afogo no êxtase da realidade, no alcoolismo das minhas entranhas. Na fuga, acendo um cigarro contendo nicotina.
Aqui nesta terra precisamos escolher. Um passo de cada vez para sobreviver. Um experienciar de cada sensação por vez. Na sutileza da vida, desconfiar para mais tarde não se ferir. Em cada amanhecer é preciso ser feliz, mesmo que isso lhe custe a própria vida.
No terreno abandonado, ossos foram escondidos. Investigações mal feitas dão conta do que querem esconder. Ossos enterrados em um terreno abandonado. O que precisam esconder? A quem pertencem esses ossos?
Todas as manhãs perdidas, evitando ser descobertas, perdidas em pensamentos. Que pensamentos são esses que nos fazem descuidar da própria vida? Uma vida negligenciada pelo ciúme.
Os dias passam depressa, lentos quanto o meu sucesso. Os ossos escondidos nos apavoram. Tudo não passou de um sonho, sonho acordado, sem direção, sem êxtase… sem verdade… Tudo não passou de uma fantasia de um sonho escondido em um terreno baldio, instante antes de ser descoberto, de estar livre, enquanto existir um novo amanhã.
Tudo é dependente do amor
Homem caído na sarjeta,
pela madrugada observo.
Sem dignidade,
esconde os seus preconceitos.
O desespero aumenta,
não existe paz em seu coração.
Os dias são traiçoeiros.
Escolhi me perder
dia a dia.
Me perco em meus desejos,
sem filtro me escondo.
Tudo é opção.
Os escombros são a minha alma.
Peco
com meus desejos.
Pecado é ter você
sem sua roupa em minha cama.
Pecado é amor.
Disse o meu ego:
“Tuas asas estão presas em mim.
O teu corpo é meu corpo.
Meus são também os seus amores.
Tuas amantes são minhas.
O teu prazer solitário são todos meus.
Meus são os seus dias,
a lua da sua noite,
o que os seus olhos tocarem.”
Nos túmulos fétidos,
corroídos por vícios,
túmulos lindos
ocultando a nossa última missão.
Na mais doce ilusão
de que vamos viver no paraíso.
O tempo é o instante perdido,
desejo desfeito,
perdido a procurar
do êxtase o momento.
Procuro o tempo no tempo,
no amargo da solidão.
Onde o amor se ausenta,
o delírio se mantém,
a violência impera
como um incômodo graveto
que inflama a ponta do dedo,
que destrói toda a nossa paz.
A minha evolução depende de você.
Não existe sociedade individualista.
Não se constrói dignidade com ódio.
Nada floresce no deserto,
em um corpo sem coração.
Tudo o que vive e respira
precisa de nossa unidade.
Cabe a cada um de nós querer.
Carlos de Campos