Eu vejo o passado me assombrando
Uma sombra recai sobre mim
Quem sou eu nessa batalha terrível?
Sou nada além de um abismo.
Carlos de Campos

Eu vejo o passado me assombrando
Uma sombra recai sobre mim
Quem sou eu nessa batalha terrível?
Sou nada além de um abismo.
Carlos de Campos

Livro 4: Título provisório — Solidão Digital
Poema 01/60 — Que os dias de solidão acabem logo
Um quarto de prisão.
Sou inocente,
condenado pela insistência de existir.
Existo no instante do veredito.
Quando a alma está encarcerada,
nossas orações já não fazem mais sentido.
Sinto este instante me comprimindo;
a prisão calou os meus sentidos.
Enquanto a solidão me abraça, Compre aqui.
No cárcere desta longa solidão,
alimento-me do medo,
na embriaguez de minhas palavras,
do ódio que alimento no canto mais frio da alma.
Os cadáveres me assombram todos os dias.
Esqueletos são as minhas companhias.
Noite fria, nua, me seduzindo.
Mergulho em mim.
O que esperar desta solitária prisão?
Dos dejetos que se acumulam em minha alma?
Da sombria decisão da vida?
O que devo esperar dos abusos que sofro aqui?
Tudo é tão gelado,
sem dia para terminar.
Nesta cela fria, eu me vejo.
Encorajo-me a ser só solidão.
Carlos de Campos
16AL01

Sangue correndo pelas minhas mãos
Suas mãos estão sujas de sangue.
Sangue...
Acabou de matar.
Sangue…
Sangue escorrendo de sua boca.
Sangue...
Matou uma moça virgem
para alcançar seus desejos.
Violência!
Ouvem-se gritos em meio à neblina.
Gritos de prazer sórdido,
gritos do próprio assassino.
Amanheceu, e os terrenos baldios,
cheios de corpos, encontramos.
Corpos desfigurados.
Sangue por todo lado.
Esquartejadas as encontraram.
A violência segue.
As noites nos causam calafrios.
Cheiro forte de sangue no ar.
Sangue escorre pela minha boca.
Nada recordo da noite passada.
Estou amarrado em uma camisa de força,
louco para beber o teu sangue e comer sua carne.
Carlos de Campos

No sombrio cadáver se fazem vitórias
Norteando…
Desequilíbrio à vista,
medo sob imposição.
Movimento de possibilidades,
da vitória da verdade,
dos lunáticos encarcerados.
Mergulho em vitórias,
vitórias alcançadas com lutas,
batalhas conquistadas na marra.
Carlos de Campos

Sua desolação ofegante
Os olhares do mundo estão atordoados,
Perplexos pela ausência
De qualquer resquício de esperança.
Ausência silenciosa.
Caem na face lágrimas
De um dia triste,
Sem qualquer atrativo,
Só o estímulo do instante.
São dias de muita tristeza,
O ser já não aguenta mais existir.
Existir se tornou enfadonho,
Pandemia de uma mente doente.
Não existe promessa.
Não temos nada com o que festejar.
Só a lamentação orienta.
Existe quem não queira aceitar.
Não existe um novo amanhã.
Existe um novo tormento.
Não existe um porto seguro.
Deus sorri com ironia.
Existo.
No existir, adormeço.
Na desolação, me esqueço.
No esquecimento, eu existo.
Carlos de Campos

Sou o príncipe da escuridão
Imperdoável é cada ato.
É um ato que instiga memórias,
é um ato perfeitamente incompreensível,
é um ato que desequilibra o dia.
Sou um átomo de miséria,
de irrelevância quântica.
Sou um nada;
nos dias frios, sou a tristeza.
O grito reprimido,
as mãos atadas,
o ideal desprezado,
nada além de ser só mais um.
Enquanto existir o amanhã,
a alegria em mim se apagará;
o desejo estará escondido,
e o medo triunfará.
Os demônios entram em minha vida,
percorrem a minha mente com sua orgia:
depravação da hiper-hipocrisia.
Do ventre nasce um bezerro de ouro.
Os dias passam sem passar,
os meses estagnaram
na odiosa sensação de perfeição.
Sou só mais um perfeito imperfeito.
Carlos de Campos
