“Teu é o dom para ser feliz” é um poema de escuta, silêncio e retomada de si. Ele pulsa na fronteira entre o trauma e a cura, e oferece ao leitor um caminho possível: confiar na intuição, firmar os próprios passos e se reconectar com o dom de existir.
Teu é o dom para ser feliz
Não erga a sua mão, jovem… Não destrua sua juventude. Não se deixe levar.
São tantas vozes que você ouve, também são exagerados “nãos”, mais gritos ecoando pela casa. A essa altura, nada faz sentido.
Não se deixe ser levado pela vida, escondido… Fugindo a todo instante, instante em que a vida te feriu por dentro.
Este poema-reflexão mergulha fundo na sensação universal do vazio existencial, explorando o peso do sofrimento e a busca constante por sentido em um mundo marcado pela dor e pela injustiça. Com linguagem acessível e forte impacto emocional, a obra convida o leitor a uma viagem filosófica sobre a origem da consciência e o conflito entre esperança e desespero. Uma leitura essencial para quem busca compreender melhor o próprio lugar no mundo e os dilemas que moldam a experiência humana contemporânea.
Há um clima pesado na atmosfera do mundo. Ganhar e perder a vida se resume a isto.
No princípio da vida, existia um lugar onde encontrávamos conforto e segurança. Neste lugar, só eu e minha esperança coexistíamos. Mas, mesmo nesse lugar belo e confortável, eu me perguntava: Onde estou? Para onde vou?
Dia após dia, na medida em que ia se formando a minha consciência, os meus questionamentos só aumentavam e iam se tornando cada vez mais intensos. E, com eles, os medos e as angústias me dominavam. O desejo de querer saber era terrível.
Em dias “normais”, o desejo era mais intenso, essa minha “loucura” de querer saber qual era o sentido da minha vida. Era intrigante constatar que, desde a minha concepção até o meu nascimento, tudo o que experimentei e experimentava era só dor e sofrimento, com pequenos momentos de alívio que chamamos de felicidade.
Em um dia mais tranquilo, eu vi o ódio, a fome, o genocídio, a injustiça — só para citar alguns — arrasarem livremente o mundo, e ninguém fazia nada para conter. Onde estava a lógica nisso tudo? Nascer, crescer, só para sofrer e ver os outros sofrerem? Quem preferiu a dor em vez do amor? A fome em vez do prazer?
Eu sou só mais um, em meio a outras bilhões de pessoas que carregam em seu peito essa brasa flamejante, que, com persistência, nos queima a todo instante. Essa profunda marca nos interroga a todo momento sobre o que estamos fazendo aqui.
Aconteça o que acontecer hoje de bom ao longo de seu dia, o que estamos fazendo aqui continuará ecoando dentro de você, e nada poderemos fazer sobre isso. E tudo isso, querendo ou não, influencia o nosso comportamento e decisões diariamente. O vazio existencial é assustador.
“Preciso me dar um tempo” é um poema honesto, impactante e sensivelmente atual. Ele traduz, com lucidez e dor, o retrato de um sujeito contemporâneo esgotado pelas exigências do mundo, que encontra no próprio colapso uma chance de lucidez: cuidar-se antes que seja tarde.
Preciso me dar um tempo
Leveza de um destino entrelaçado Em uma busca sem desfecho Ironia É só o que encontro.
Os desafios são sem fim No auge, procurei desistir Sem saber que não estava no auge Só estava cansado.
Ir sempre além Mesmo estando cansado É como gostaria de pensar Só que a realidade me diz que ando esgotado.
Cansado… Estou aflito por sentimentos que não sinto Ir além… É ir de encontro com a morte.
Preciso me afastar do mundo Das pessoas que sabem de tudo É vital focar nas coisas que se passam em minha mente E parar de ser intransigente comigo.
Com urgência, preciso me cuidar Antes que seja tarde demais E eu venha a sucumbir Me desfazendo em partículas pelo asfalto.
É inverno… O frio nos convida a nos aquecer. Sente como é desconfortável? Amanhece, e tudo está gelado.
Preciso ir trabalhar, e está muito frio. E como animo as crianças? É tempo de se aquecer Com um gostoso chocolate quente e poesia.
Meus versos são como brasas: Aquecem, estimulando o coração. Abraçam com força em dias frios. Meu verso é um braseiro.
Ao me ler, você afaga suas lembranças. Eu o agasalho com um cobertor de carinho. Esteja onde estiver, ao me ler, eu te acolho Com amor e versos bem quentinhos.
Não existem versos tão calorosos Que aqueçam a alma em tempo indeterminado. Elevam a emoção… Para que todo o corpo sinta a vibração.
Sinta a pele aquecida Com o calor quente dos meus versos. O aquecimento interior sendo elevado… Meu verso é um fogo que permanece.
Era de madrugada, ouço passos Pressinto a chegada de um estranho Ofegante… Bate na porta com violência.
Me levanto, olho pela fresta da janela Um homem nu, caído. Noto que seu corpo está todo perfurado Me dirijo até a porta, enquanto aciono a polícia.
A polícia chega, e sua única preocupação É me olhar com olhares de quem já me condenou. Em meio àquele falatório e acusações sem provas, Me concentro em meus pensamentos.
E em cada detalhe do corpo à minha frente, O que mais me intriga É a tatuagem em seu peito Com os dizeres em latim: "Advocata mea pro me loquitur."
Depois de alguns dias mergulhado nessa história, As ideias e provas foram sendo construídas, Me levando a uma única dedução: Em meio ao caos — identidade, vingança.
O morto veio de uma cidade distante daqui, Encontrou-se com o bispo local. Localizei sua advogada por meio da tatuagem. Bispo e advogada estavam abraçados — e mortos.
Tua grandeza é assustadora Teus princípios são reveladores Já és quem, em tua busca, se propôs ser.
II
Interiormente evoluído Dom supremo Inigualável O mundo não te conhece Ou melhor: O mundo ainda não te conhece. Dá ao tempo o tempo de maturação. Os frutos já sobrecarregam os vinhedos. O tempo da colheita já se anuncia. É tempo de colher prosperidade. E que os próximos anos sejam abundantes. Lá no vinhedo, é possível ver Com que força vai se irrompendo O amadurecimento dessas belas uvas. Mesmo ainda no processo de maturação, É possível sentir, a quilômetros de distância, Nitidamente, O doce suave desses frutos. Incontável será essa colheita. Mostra, com orgulho, essa tua produção Logo as uvas amadurecem, Mas já era possível constatar Com que força e beleza vêm sendo os seus versos. Com que força podemos constatar? Chegou onde chegou E como chegou: Só quem o caminho fez a cada dia Tem em si a plenitude da certeza De que o tempo da colheita chegou. E com ele chegaram também A prosperidade, o reconhecimento e a abundância. Nos pés de cada saborosa uva Surgem também Preciosos e delicados poemas, Como flores que nascem em um jardim Para embelezar a nossa visão. Dê uma última olhada Para o seu passado sombrio E tenha a certeza De que para lá você nunca mais vai voltar. Olhos fixos agora para o horizonte, Para o mais belo horizonte de sua vida.
III
Célebre em sua alma Esse dia que é para ser recordado Individualmente e coletivamente. Teus são os esforços. Cultivou a terra dura Com disciplina e harmonia. Cultivou… Dias, meses, anos. Cultivou… Sem perspectiva alguma. Continuou… Cultivando a terra dura. E agora, nada é mais justo Do que a vitória seja celebrada Com poemas Que emergem da alma, Da alma que, mesmo ferida, Continuou o cultivo da vinha.