Indo para São Paulo, me deparei com você, toda a beleza encarnada em uma só pessoa, em um só lugar, em uma só personalidade. Tudo o que eu conseguia fazer era ficar ali, admirando. Naquele ônibus, tudo passou a ser mágico.
João era um amigo muito próximo. Ao perceber que toda a minha concentração estava naquela mulher, João me cutucou e sugeriu:
Vai só ficar olhando ou vai se levantar para falar com ela?
Não sei por que, mas me faltava coragem.
Daqui a pouco eu vou – respondi a João, sem tirar os olhos dela.
Pensava no que falar, como me comportar e como poderia disfarçar minha timidez quando fosse falar com ela. A timidez tinha tomado conta de todo o meu ser naquela altura. Não queria ser mal interpretado.
Tudo naquele momento me parecia difícil de executar. Não entendia o porquê, mas só me sentia inferior diante dela, diante da beleza que a personificava. Por que a considerei bela demais para mim? Como eu poderia ter evitado essa conclusão?
Quando resolvi me levantar para ir até ela, meu despertador começou a tocar. Precisei, então, me levantar para ir trabalhar.
No final das contas, a minha vida, a minha realidade é essa: durante o dia, trabalhar tanto que sou incapaz de identificar o rosto de alguém; à noite, o que me resta a fazer é sonhar e, no sonho, desejar ver, tocar, sentir o belo que existe para ser vivido e que não consigo.
Caminhar em direção ao próprio desejo. Quem caminha acaba se encontrando. É necessário que esse encontro aconteça para que a realidade se imponha sobre a fantasia. Na vida, deve-se ter cautela ao fantasiar, pois uma vida equilibrada dá credibilidade à realidade. É na realidade do cotidiano que vamos nos organizando, e esse trabalho nos ajuda a evoluir enquanto seres humanos.
O desejo é superficial quando não vem acompanhado de atitudes, e o comprometimento é a palavra-chave para o sucesso.
A provocação que deixo é que sejamos melhores como pessoas. Que não vivamos apenas de desejos. Que, realmente, sejamos pessoas comprometidas com a vida “real”; com suas alegrias e tristezas. A vida “real” exige que nos comprometamos, mais que a vida “virtual” que temos levado.
Muitos acreditam que a vida que levam é uma vida “real”, uma vida comprometida com a transformação da realidade. Muitos vivem em suas “vidinhas” egoístas, acreditando que são agentes que contribuem com a evolução do coletivo, ou que, suas atitudes, estão sendo fundamentais para que a sociedade mude para melhor.
Toda transformação social exige de cada cidadão uma ação coletiva. É preciso muita coragem para romper a bolha em que estamos vivendo. Bolha que construímos com muita dedicação.
Perceba que, ao ter a capacidade de romper com o próprio casulo, você foi capaz de ter uma atitude nobre. Com essa atitude, também dizer, sem emitir sequer uma palavra, que está cheio de ser explorado, humilhado e de ter suas vidas continuamente vilipendiadas.