Meu espelho
No auge,
me vi.
A solidão é você.
Carlos de Campos

O amor existe?
Longe do amor,
cá estou.
Livre?
Não sei exatamente.
Estou sozinho.
O que sei sobre o amor?
Somente quem amou sabe?
O que é o amor?
O amor é uma prisão?
O amor é a liberdade?
O que é o amor, afinal?
Os que dizem amar estão presos.
Os solteiros estão livres?
O que é estar livre?
Sou solteiro e livre?
O que é ser livre, afinal?
O que é estar vivendo?
Vivo para amar?
Vivo para ser solteiro?
Vivo para ser livre?
Estou livre em minha intimidade?
Amo na liberdade dos aprisionados.
Amo na solidão dos que vivem solteiros.
Amo porque posso amar.
Carlos de Campos

Meu desejo pela mansidão
Mansidão é como sinto a minha vida.
A vida, mesmo ferida,
é como a sinto:
mansidão.
Incômodos acontecem.
Mesmo ferido,
a mansidão sempre encontra um abrigo
dentro de mim — me encontro.
Dentro de mim
existem as incertezas
que pairam sobre a minha cabeça,
que busca a mansidão plena.
Jogo com a mente,
mente desprovida
de uma liberdade acomodada
de incertezas.
Mansidão
é a solitária procura,
cômodo desprovido
de um delírio saudável.
Finalmente, me vejo:
meu ideal
de ideias sem fim,
sem destino.
Carlos de Campos

É no impossível que se realiza o possível
Move-se em meu ser
um ser finito,
com limitações,
um ser que abriga o infinito.
Somos as mais belas das contradições.
Somos extremamente limitados,
ao mesmo tempo em que manifestamos o infinito
em tua essência, em nossa vida.
É, em nossa vida, um mistério da resistência,
em que o não existir seja o mais coerente.
De incoerência em incoerência,
resistimos para existir.
É no apogeu dessa existência finita
que miramos, de maneira natural, para o infinito.
E, sem saber ao certo,
seguimos — limitados, mas seguimos.
Perseguimos o entendimento do infinito
que, quando chega até nós, é finito.
É finito quando o observamos,
e infinito quando buscamos alcançá-lo.
É um mistério que procuramos desvendar.
Buscamos o sentido de estarmos aqui,
entre o possível e o impossível
e a possibilidade de sermos quem não sabemos quem somos.
Carlos de Campos

Canto da ausência presente
No abismo dos teus olhos,
me vejo só,
infeliz em tua companhia,
sozinho me encontro.
No abismo dos teus olhos,
os mesmos olhos ausentes,
sentindo frio
em um sótão.
Olhos ausentes
em um frio imensurável,
destino solitário
no abismo do sótão da indiferença.
Destino de olhar profundo
no fundo de um subsolo obscuro,
destino escondido
de um olhar extasiante.
É uma dor contida,
de desejos sem sentido,
de sol sem as estrelas,
estrelas que pulsam no subsolo.
De um olhar como o teu,
olhar de um abismo profundo,
que no silêncio grita por presença
na ausência da tua lembrança.
Carlos de Campos

Os caminhos são incertos
Existe desejo que não é só desejo:
virtude apática.
Existe poder que é só desrespeito,
força com violência.
Existimos em meio a tudo isso,
em meio à distopia.
Sofremos violência
e também a cometemos.
Instinto.
Desejo proibido.
Sem solução.
Estranho em emersão.
No teu entendimento,
só acabamos com o outro.
Longe de um equilíbrio,
o certo é a incerteza.
O ser humano é uma incógnita,
mesmo para si.
É um desafio a ser decifrado,
um labirinto escuro a ser explorado.
Não existe um caminho certo,
nem indicação de direção.
Só existe a velha e certa incerteza
e dúvidas das incertezas certas.
Carlos de Campos

Deterioração da mente compassiva
No difícil convívio comigo,
consigo ser surpreendido.
Nada é claro,
nem tudo é simples.
Todos os dias,
a gente pira um pouco mais,
e nem percebemos.
Mesmo assim, continuamos.
Ódio e ilusão,
descontentamento refletido,
e eu estou perdido em mim
e em minhas contradições.
O que pensar, não sei.
Sei que a realidade é triste,
repugnante,
massacrante.
Intimidado pelo meu próprio mundo interno,
que me interpela constantemente
para que eu permaneça estagnado
nesse conflito com a mente.
É ilusão acreditar que exista solução,
quando os agentes da transformação
foram cooptados por emoções não resolvidas.
Estamos vivendo na inércia.
Carlos de Campos

Interior é a vida que vivemos
Quem deseja ir
Sem saber o que quer
E sem saber para onde vai,
Vai sem direção.
Em que direção devo seguir?
Sigo o coração perdido?
Os escombros de uma história inteira?
Parado, encontro a existência.
Existe uma resistência em prosseguir.
O abismo é...
Um silêncio que grita no vazio.
É uma luta desesperada pela sobrevivência.
Caminho de difícil acesso,
Entre buracos e desníveis.
Mas é preciso continuar.
Não dá para ficar estagnado.
O interior é a força que nos influencia,
É quem dita para onde devemos seguir
E como percorremos esse trajeto —
Justamente onde damos menos atenção.
A alma interior
É quem nos conduz
Para onde estamos ancorados.
Você está ancorado em que cais, nesta existência?
Carlos de Campos
