Tempestade
Motim noturno
Prelúdio de emoção
Recalque cala.
Carlos de Campos

No suspirar de uma Deusa
O mosteiro em chamas,
Pecados e pecadores
Se consumindo em fornicações,
Deleitando-se no moralismo barato.
Incapaz de viver uma vida santa,
Impõe aos fiéis o sacrifício vespertino,
E finalmente bebe-se no cálice da redenção
No silêncio sabático da mortificação.
Eu prometo, diante do Deus Altíssimo,
Cultuá-lo na sua ausência plena,
Que só revela a sua inexistência.
O adorador a ti se rende, dando glória,
Enquanto entoa um hino que maltrata o próximo.
Tua é a promessa vazia.
Carlos de Campos

Indo e vindo de uma vida fracassada
A desilusão me apavora
Sem rumo sigo na vida
Em mais um dia sem expectativas
Aguardo ansiosa pelo pôr do sol.
Agarrado nos bons momentos
Que não duram mais que alguns segundos
A realidade dói demais
Carrasco de minha alma.
Os dias são enfadonhos
Cuspe na cara
Tratado com desprezo
Essa ida e vinda me destrói.
Não existe fracasso
Quando o sucesso ainda nem aconteceu
O que existe são cacos pelos caminhos.
Me rendo ao encanto
Do desencanto que não admitimos
Que não vale mais a pena lutar.
Carlos de Campos

Para que as pessoas estejam em paz
Fingem pensar em paz
Põem arma na mão
Desejam guerra
E querem os semelhantes mortos.
Onde queremos estar?
Quando nossos atos nos levam às intrigas?
Perdemos a consciência?
Sabia que você é a principal vítima?
Às vezes as mudanças se fazem necessárias
Sabendo que é difícil abrir mão de nossa verdade
É preciso deixar o egoísmo de lado
Para que a árvore da paz dê frutos.
Uma sociedade sem violência
Depende do empenho individual de cada um
Sem adesão pessoal continuamos na mesma.
Metamorfosear a si mesmo
É transformar a realidade à sua volta
Estar transbordante de paz.
Carlos de Campos

O contratempo da memória
Morremos todos os dias
Cada minuto é um minuto perdido
É um minuto que não volta mais
Um minuto que se foi.
É o tempo quem nos mantém presos ao chão
Perdidos em nossas convicções
Surpresos de nossas contradições
É o tempo quem nos faz perceber nossas limitações.
Tudo vai se esvaindo pelas nossas mãos
Ilusões são passageiras em nosso trem
Compreensões incompreendidas se vão
Busco só saber o que restou dessa quimera.
Lampejos são as memórias
De uma mente sem pátria
Sendo o tempo a nossa âncora.
Tempo de amar
De viver o tempo todo
Dando sentido às nossas memórias.
Carlos de Campos

Minha falta de opção
Não adianta tentar esquecer
Quando tudo o que experimentamos é só ilusão
Deveres e obrigações
Noites de insônia sem fim.
Quando os dias são pesados
A esperança esperneia
Não desistir é o ideal
Luta, briga com as próprias emoções.
Emoção à flor da pele
Pele que sente o frio do abandono
Desrespeito das loucuras alheias
Fluidez de toda alucinação.
Ódio como reprodução do medo que sinto
Escondo-me para não ser mais ferido
Morte por asfixia.
A insânia se estende
Contra a nossa própria vontade
Entre traumas e desencontros.
Carlos de Campos

Passado ferido
Movimento
Distorce o pensamento
Inflama o peito.
Medito sentindo cheiro de sangue
Das ilusões que te convencem
Fracasso humanitário.
Ódio arroubo da alma
Ferida e cansada
Pronta para ser exterminada.
Carlos de Campos

Essencial à vida
Árvore
Fruto
E sombra
Combina com ar fresco.
Árvores frutíferas
Alimentam a vida na terra
Com suas raízes a embalar
Cuidado que arrefece.
Sinto-me amado
Minha alma está coberta por tuas folhas e flores
Companhia silenciosa ao mesmo tempo presente.
Há quem deseje destruí-la
Sem perceber a consequência
Você é a razão da existência humana.
Carlos de Campos

Move
Movimento da alma
Espelha na vida
Dia após dia
Estamos presos às nossas escolhas.
Mistura na vida
Existimos conectados fisicamente
Somos almas gêmeas
Mistério da física quântica.
Amor ou ódio
São as escolhas que temos
Afetamos e somos afetados.
Equilíbrio, melhor opção
Olhar para dentro
Para que possas cultivar o amor.
Carlos de Campos

O milagre moderno
Envergonho-me
Diante da tua estupidez
Do cinismo que te envolve
Da incapacidade de se resolver.
No delírio de grandeza
Acomoda-se o medo da verdade
Domados pela falsa realidade
A injustiça não se vence com mentiras.
São muitas as seduções para a alma
Difíceis de serem recusadas
E assim, deixamos que as falsas vantagens nos levem.
Milagre!
Grita o golpista articulado
E almas são convencidas de imediato.
Carlos de Campos
