A morte
dos versos ao longo da história
Silêncio interrompido
Ouço um suspiro.
Carlos de Campos


O silêncio de uma noite de terror
Foi em uma manhã qualquer
Vi-me aterrorizada.
Sem chão, lá estava eu,
Diante do medo indomável.
Mostrou-me a sua face,
Sem qualquer pudor, arruinou-me.
Em uma manhã qualquer,
Deitada eu me encontrava.
Tudo parou de repente.
Era como se aquele trauma
Tivesse sobre mim um poder sobrenatural.
Sinto-me triste.
Suas mãos me dominavam,
Nada me era possível fazer.
Eu chorava em silêncio,
Um choro que só desejava vingança.
Na manhã seguinte,
Sem muito o que pensar,
Além do terror da noite anterior
E de como tudo aquilo já se tornara rotina.
Na manhã desta triste vida,
Termina aqui.
Nada mais tenho a falar,
Além do meu silêncio, que deve incomodar.
Carlos de Campos

Sorte é florescer no jardim da própria morte
O sol
pôs-se diante dos meus olhos,
dos mesmos olhos que viram a saudade
sem saber das cores
de uma vida sem flores,
que floresceu na morte —
morte que desabrocha a nossa sorte,
sorte de não se ter o amanhã.
É importante o dia da morte,
que floresceu em um dia de sorte.
Em dia de sorte,
provamos da própria morte,
da sorte que gera a ilusão
de sermos eternos —
eternos até florescer a nossa própria sorte.
Caímos na própria teimosia:
eternos até o grande dia,
dias de paz,
de um silêncio sepulcral.
Flores que florescem a todo tempo,
flores da morte,
da sorte,
da insensibilidade com a vida —
vida temida.
A morte deu sorte:
sorte de florescer na própria morte.
Carlos de Campos

Esse verso é do poema Silêncio do meio-dia, que escrevi pensando na dor que só o silêncio traz. O que te incomoda mais que o frio?

O desejo me desafia a desejá-lo
O meu universo vai além das cores e formas,
Além de tudo o que está além,
Divagando…
O que ninguém pode falar.
Fala-se o que carrega peso
Do tempo que ainda nem é tempo.
Fala-se sobre o impronunciável,
Divagando…
O impronunciável detesta ser observado.
De olhar atento, permanece como sentinela,
Diluído e fragmentado,
Esquecida está a sua fala.
O impessoal precisa ser levado em conta,
Desponta na escuridão,
Doando-se.
Déjà-vu…
Encontro com o inesquecível,
Perdido no vazio.
Solidão…
De rara e inesquecível beleza.
Inesquecível beleza,
Beleza rara,
Destemida,
Incompreendida.
Ao destino, falo o que sinto,
Falo o que omito.
Desisto de falar porque me envergonho.
Diante da realidade, apenas me comovo.
São falas como essas que me aprisionam.
Me sinto deslocado.
Enfurecido estou, agora
Perdido no tempo.
Divago…
Nos tumultos existentes, me desaguou.
Na interminável exploração, eu reflito.
Desisto, enquanto sinto.
O impronunciável volta a se pronunciar
No andar leve,
No olhar sedutor.
Fala-se o que não se pode falar.
Beleza irradiante.
Comovido, escorrem lágrimas.
São lágrimas que não podem ser faladas,
Falas que não podem ser sentidas.
Discurso ofegante.
Divago no presente ausente,
Nas lutas perdidas,
Dor dos abraços não correspondidos.
Loucura…
Mortandade…
Funeral dos sentimentos.
Loucura sentida.
Sentimentos reprimidos
Do que não pode ser falado.
Dor…
Deslocado estou no desejo.
Imperfeito,
Do mundo interior me escondo.
Me abstenho dos desejos,
Desejos imperfeitos.
Impronunciáveis são os meus desejos,
Distorcidos e incompreendidos,
Desejos retidos,
Encarcerados pelo sentido.
Me encontro divagando em meus pensamentos.
Desejo…
Do falar impronunciável,
Carcereiro dos meus atos.
No auge do amor, me entrego.
Destino traçado.
Imparável!
No demais, deixem o amor falar, se expressar.
Carlos de Campos

O lendário medo de ter tempo
Meu mundo muda e fica mudo
Dialogam…
Entre um e outro existe um espaço de tempo
Tempo…
O tempo dialoga com o meu mundo
Um mundo que fica mudo
O tempo requer espaço
Intervalo…
No intervalo de tempo existe o meu mundo
O mundo que fica mudo
Explosões sensoriais
Dentro do meu mundo que fica mudo.
Olha no meu mundo
Delícia…
Existencial…
Olhar antinatural.
Demasiadamente obsoleto
Olhar comportado, desconfiado
Confinado no ar
No meu corpo.
Instinto condenável
No ar congestionado
Corpo inteiro
Desejo escondido.
Meu mundo é um labirinto
Lá existe um labirinto escuro
Um mundo de labirintos escuros
O tempo é no labirinto.
Lá, o tempo fica mudo
Sem o tempo, tudo fica insosso
Labirinto…
No mundo distante e escuro…
Meu mundo é um mundo de desejos
Enrolado em papel cor-de-rosa
Dá nuances
Prefiro um labirinto cor-de-rosa.
Jovem cheio de energia
De nuance, prefiro a cor da pele
Mundo cheio de labirinto
Cai a bolsa e tudo tem um novo aspecto.
Me deixe ir
Soltar a pipa
Debaixo daquele aquário
Que laboriosamente foi esculpido.
Com o sangue cor-de-rosa
Meu mundo é um labirinto escuro
Fechado…
Escuro…
Ainda é o meu mundo mudo.
Meu mundo é um mundo mudo
Estrela no céu brilha no escuro
Mudo é como me sinto
Lá existe um medo existente.
O meu medo está no labirinto
No labirinto escuro
Isto é assustador
Um labirinto que causa tanta dor.
Medo…
Tempo do medo
Escuro do medo
Delícia…
Mundo do medo
Do tempo
Lá existe o tempo do medo
Medo do medo.
Existe o medo da existência
Para a sobrevivência
De soberba
Sua mania do tempo.
Existe o medo da existência
No mundo mudo
Quem sobrevive é porque tem medo
Medo de um mundo sem tempo.
Carlos de Campos

Inteiro no silêncio
"Silenciar é uma maneira de alcançar o interior do ser."
Uma a uma,
são derrubados os obstáculos;
vejo o caminho aberto.
Uma a uma, as tropas avançam;
nada é capaz de conter.
Escondo-me!
Escondido, encontro-me com o silêncio,
um silêncio aconchegante.
Uma a uma, as minhas células vão se transformando.
Uma a uma, vão se adaptando;
vou buscando o silêncio:
destino!
É no silêncio que me encontro,
desencontro de ilusão.
Não existe confronto no silêncio.
Carlos de Campos

Café e Boa Companhia
No nascer do sol,
O silêncio é interrompido
Pelo canto do sabiá,
Que anuncia a chegada de mais um dia.
Café moído pela manhã,
Para celebrar mais uma oportunidade,
E feliz por ter você comigo,
Formosos são os brilhos dos teus olhos.
O dia é sempre mais leve
Quando focamos nossa energia no belo,
Em nossa evolução pessoal.
Café em boa companhia,
Nada melhor para começar o dia.
Desejo que todos experimentem.
Carlos de Campos
