Ah, os loucos! Tidos como incapazes, observam o que a nossa mente sóbria não percebe. Sóbria? A verdade sempre dói.
Me diga a verdade. Somos incapazes por estarmos chapados de tanta sobriedade. Somos a história de nossas meias verdades. Ah, os loucos! A verdade sempre dói na carne.
Na verdade, não sabemos lidar com a nossa contrariedade, com a promiscuidade latente em nossa mente. Mentimos para nos escondermos da nossa realidade. Mentimos para nos protegermos da dor que dói o dia inteiro. Essa é a verdade que vai doendo até mais tarde.
Vem e veja essa dor. É a dor feita de verdades, verdades que tentamos esconder. Ah, os loucos! Não temem a verdade que dói o dia inteiro.
Pip: Memória e poesia chegou com versos que não deixam ninguém em paz — no melhor sentido possível.
Mara: É isso. Os textos de Mensagem com poesia percorrem dois territórios pesados: a violência silenciada do assédio e a inevitabilidade da morte. Vamos começar pelo que dói mais de perto — o poema que fala de mãos, medo e a pergunta que não deveria ter resposta incerta.
Violência, silêncio e a certeza errada
Pip: O poema “Mãos de Assédio” coloca o leitor exatamente onde não quer estar — dentro da cabeça de alguém que passou a noite acordada pesando se denuncia ou se cala, sabendo que ambas as opções têm um custo.
Mara: O poema nomeia isso com precisão: “Há tantas perguntas, onde só deveria existir uma certeza: que não fosse a certeza da impunidade.”
Pip: Ou seja, a única certeza disponível é a pior de todas. Não a certeza de que denunciar resolve — mas a de que provavelmente não resolve. É aí que o silêncio vira uma escolha racional, e não uma fraqueza.
Mara: O poema sustenta essa tensão do começo ao fim. Há uma lúcidez perturbadora na voz: “Sinto-me confusa, estranhamente lúcida” — os dois estados coexistindo, sem resolução fácil.
Pip: “Estranhamente lúcida” é uma das combinações mais honestas que já vi num poema sobre trauma. A confusão e a clareza não se cancelam — se alimentam.
Mara: E o corpo aparece como registro do que aconteceu: “Ainda sinto sua mão suja em mim.” A cidade segue em movimento, o mundo não parou, mas ela está deitada com calafrios, tentando se projetar para longe o suficiente para não ter que voltar.
Pip: Voltar, no poema, é sinônimo de se acovardar. O que é uma inversão brutal — porque o senso comum diria que ficar é coragem. Aqui, partir é a única saída que sobrou.
Mara: É um poema que não consola e não resolve. Ele documenta. E essa escolha de não oferecer alívio é, em si, uma forma de denúncia.
Pip: Falando em aceitar o que não tem conserto — o próximo poema vai fundo em outro assunto que ninguém quer encarar.
O que se esvai com o tempo
Mara: O poema “Morte” é curto e direto: “No passar dos anos, tudo se esvai naturalmente. Aceitar é o melhor caminho.”
Pip: Três linhas que fazem o que a maioria dos textos sobre morte não consegue — não dramatizam, não consolam com promessas, só nomeiam.
Mara: Há uma serenidade austera nisso. O poema não pede que a morte seja bonita ou justa. Pede que seja aceita. E essa distinção importa.
Pip: Silêncio forçado de um lado, aceitação necessária do outro — os dois poemas falam de rendição, mas com cargas completamente diferentes.
Mara: Uma rendição que dói, outra que libera. Vale a pena voltar a esses versos com calma.
Sua mão perdida em minha perna. Meu silêncio denuncia o medo. O que fazer? Pergunto-me. No silêncio, perco-me dentro de mim, na angustiante dúvida de denunciar. Já não estou mais lá.
Durante toda a noite, fiquei acordada. Fazer o que sobre isso? Me calar? Denunciar? Há tantas perguntas, onde só deveria existir uma certeza: que não fosse a certeza da impunidade. Sinto-me confusa, estranhamente lúcida, pela certeza que tenho de que me calar é o melhor caminho. O medo só aumenta à medida que o dia se aproxima. Não me sinto bem. Minha voz desapareceu. Ainda sinto sua mão suja em mim.
A cidade se movimenta. Deitada e com calafrios, me encontro. Distante da realidade, tento me projetar. Projeto-me para tão longe que não quero mais voltar. Voltar significa me acovardar. Na penumbra dos meus pensamentos, me escondo.
A nossa beleza está nos brasileiros e brasileiras, no clima amistoso com a vida, no sorriso de um povo cheio de esperança, de uma esperança que nunca se cansa.
O povo de várias camadas, complexas e profundas, de traumas que ainda machucam e que comovem por ainda buscar forças para lutar.
Nosso Brasil! Natureza oponente, vibra quem aqui vive, não estamos à venda.
Brasil da incoerência, coração que pulsa na boca, na alma verde e amarela, no campo verde da integridade.
O Brasil, como qualquer outro país, tem os seus altos e baixos. Cada país, assim como o Brasil, espera que o seu povo esteja lúcido.
O povo unido é mais forte, um povo que busca os mesmos ideais: justiça e fraternidade para todos, um povo solidário e muito brasileiro.