Podcast – Episódio: Silêncio, Medo e Aceitação

Pip: Memória e poesia chegou com versos que não deixam ninguém em paz — no melhor sentido possível.

Mara: É isso. Os textos de Mensagem com poesia percorrem dois territórios pesados: a violência silenciada do assédio e a inevitabilidade da morte. Vamos começar pelo que dói mais de perto — o poema que fala de mãos, medo e a pergunta que não deveria ter resposta incerta.

Violência, silêncio e a certeza errada

Pip: O poema “Mãos de Assédio” coloca o leitor exatamente onde não quer estar — dentro da cabeça de alguém que passou a noite acordada pesando se denuncia ou se cala, sabendo que ambas as opções têm um custo.

Mara: O poema nomeia isso com precisão: “Há tantas perguntas, onde só deveria existir uma certeza: que não fosse a certeza da impunidade.”

Pip: Ou seja, a única certeza disponível é a pior de todas. Não a certeza de que denunciar resolve — mas a de que provavelmente não resolve. É aí que o silêncio vira uma escolha racional, e não uma fraqueza.

Mara: O poema sustenta essa tensão do começo ao fim. Há uma lúcidez perturbadora na voz: “Sinto-me confusa, estranhamente lúcida” — os dois estados coexistindo, sem resolução fácil.

Pip: “Estranhamente lúcida” é uma das combinações mais honestas que já vi num poema sobre trauma. A confusão e a clareza não se cancelam — se alimentam.

Mara: E o corpo aparece como registro do que aconteceu: “Ainda sinto sua mão suja em mim.” A cidade segue em movimento, o mundo não parou, mas ela está deitada com calafrios, tentando se projetar para longe o suficiente para não ter que voltar.

Pip: Voltar, no poema, é sinônimo de se acovardar. O que é uma inversão brutal — porque o senso comum diria que ficar é coragem. Aqui, partir é a única saída que sobrou.

Mara: É um poema que não consola e não resolve. Ele documenta. E essa escolha de não oferecer alívio é, em si, uma forma de denúncia.

Pip: Falando em aceitar o que não tem conserto — o próximo poema vai fundo em outro assunto que ninguém quer encarar.

O que se esvai com o tempo

Mara: O poema “Morte” é curto e direto: “No passar dos anos, tudo se esvai naturalmente. Aceitar é o melhor caminho.”

Pip: Três linhas que fazem o que a maioria dos textos sobre morte não consegue — não dramatizam, não consolam com promessas, só nomeiam.

Mara: Há uma serenidade austera nisso. O poema não pede que a morte seja bonita ou justa. Pede que seja aceita. E essa distinção importa.


Pip: Silêncio forçado de um lado, aceitação necessária do outro — os dois poemas falam de rendição, mas com cargas completamente diferentes.

Mara: Uma rendição que dói, outra que libera. Vale a pena voltar a esses versos com calma.

Comentários

2 respostas a “Podcast – Episódio: Silêncio, Medo e Aceitação”

  1. […] pelo sabiá.Canto no canto da alma,da alma ferida pelo amor.Não se ouve mais o sabiá;seu gorjear silenciou-sepela ferida da alma.A solidão nos convida.Carlos de […]

  2. […] me acompanham.Cabeça baixa.Insultos posso ouvir.Mercadoria, tudo em ruína.Desordem em meu ser,na história que se revela,que se abate sobre nós,nessa triste escuridão.Carlos de […]

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