Categoria: Carlos de Campos

  • Procura-se por um amor

    Procura-se por um amor

    Saio pelas ruas na esperança de me encontrar com você. Caminho observando atentamente; quem sabe não possa ser você que mexa com esse meu coração de pedra, um coração resistente que, incrédulo, vive em busca de um sentimento do qual nem acredita e que, mesmo sem acreditar, se põe no caminho.

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    Enquanto a solidão me abraça
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    O que me faz resistir ao amor? Além dos frequentes fracassos? Quem nunca fracassou quando precisou amar ou ser amado? O amor é aparentemente simples e complexo ao mesmo tempo. O amor é um belo jardim repleto de inúmeros bonsais, pequenos, belos, sensíveis e exigentes bonsais.

    Uma pessoa, quando decide experienciar o amor, precisa ter duas coisas muito importantes em mente. Ela precisa buscar o entendimento de que está “mortamente” ferida, em um contínuo processo de mutilação por suas próprias dores existenciais. E saber que essa carga emocional, quando você menos esperar, sempre virá à tona. É aqui que mora o enorme perigo, é nesse ponto em que os mais belos bonsais que foram cultivados por anos se vão de uma hora para outra. É onde tantos nobres amores morreram. Quando permitimos que os nossos medos subterrâneos falem mais alto.

    Por enquanto, esse é o meu primeiro passo: me encontrar com você. Você que compartilha do mesmo antídoto de cura, para que assim possamos nos curar mutuamente. Por enquanto, prossigo por essas ruas, expurgando de minha alma essa dolorosa realidade, para que, nesse dia, o amor possa sobreviver em nós. Antes de qualquer coisa, eu preciso me encontrar e me curar interiormente.

    Carlos de Campos

  • Onde há carência, impera a violência

    Onde há carência, impera a violência

    São muitas as ações desordenadas,
    contraditórias,
    desconectadas da realidade,
    da pura e simples incapacidade de olhar.

  • Livro 14: Rio Tietê (Poema 01/60) Não existe escolha fácil nesta vida

    ivro 14: Rio Tietê (Poema 01/60)

    Não existe escolha fácil nesta vida

    Toda escolha exigirá de nós renúncia,
    e toda renúncia vem carregada de sofrimento.
    Sofrimento.
    Palavra forte, carregada de sentimento.

    Só pode sentir que está sofrendo quem tem sentimento,
    quem um dia se colocou no lugar do outro,
    quem rasgou o próprio peito para alimentar o outro com compaixão,
    quem, a exemplo do Rio Tietê, soube ser.

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    Só quem sente na própria carne este mistério de amor
    sabe que o sofrimento vem carregado de sentimento.
    Quem de nós foi educado para acolher o sofrimento?
    Fugimos desse momento
    como se isso fosse possível.

    O sofrimento é, de fato, algo difícil de aceitar,
    e se torna ainda mais difícil quando decidimos fugir.
    O Rio Tietê nos ensina
    que todo sofrimento passa
    e que nossa doação se multiplica.

    Em seu nascimento, o Rio Tietê teve um destino imposto:
    seguir o instinto natural
    e ser apenas um breve caminho rumo ao mar,
    ou rebelar-se contra todo o sistema natural
    e tornar-se um dos raros rios do mundo
    a “correr de costas”.

    O Rio Tietê sabia que teria que arcar com todo o sofrimento.
    E, com resiliência, o rio rasgou o próprio peito
    e foi se adaptando à sua nova morada,
    reunindo em torno de si famílias
    que, até hoje, se alimentam
    das águas que brotam de sua nascente de amor.

    Carlos de Campos

  • Quando tudo é aparentemente ilusão

    Quando tudo é aparentemente ilusão

    Mudou o meu olhar para essa verdade:
    os fenômenos aéreos anômalos são reais.
    Eu vi o seu poder
    e a sua capacidade de se desintegrar.
    É assustador o que, ao mesmo tempo, é fascinante.
    Extraterrestres existem?

    Carlos de Campos

  • Sangue correndo pelas minhas mãos

    Sangue correndo pelas minhas mãos

    Suas mãos estão sujas de sangue.
    Sangue...
    Acabou de matar.
    Sangue…

    Sangue escorrendo de sua boca.
    Sangue...
    Matou uma moça virgem
    para alcançar seus desejos.

    Violência!
    Ouvem-se gritos em meio à neblina.
    Gritos de prazer sórdido,
    gritos do próprio assassino.

    Amanheceu, e os terrenos baldios,
    cheios de corpos, encontramos.
    Corpos desfigurados.
    Sangue por todo lado.

    Esquartejadas as encontraram.
    A violência segue.
    As noites nos causam calafrios.
    Cheiro forte de sangue no ar.

    Sangue escorre pela minha boca.
    Nada recordo da noite passada.
    Estou amarrado em uma camisa de força,
    louco para beber o teu sangue e comer sua carne.

    Carlos de Campos
  • Viajante do espaço

    Viajante do espaço

    Ordem, grita a voz rouca.
    Não és um animal incontrolável.
    Na verdade, és a chama a me incinerar,
    doente dos olhos.

    Ordem é o meu nome.
    Começo a não mais enxergar.
    É a vista enfraquecida,
    humor desproporcional.

    Ordem e desordem me acompanham.
    Cabeça baixa.
    Insultos posso ouvir.
    Mercadoria, tudo em ruína.

    Desordem em meu ser,
    na história que se revela,
    que se abate sobre nós,
    nessa triste escuridão.

    Carlos de Campos

  • O gorjear da alma

    O gorjear da alma

    Gorjeia, no fundo de nossa alma,
    o canto do sabiá,
    cantando o cântico da solidão,
    da solidão.

    Gorjeia a alma solitária,
    cantada pelo sabiá.
    Canto no canto da alma,
    da alma ferida pelo amor.

    Não se ouve mais o sabiá;
    seu gorjear silenciou-se
    pela ferida da alma.
    A solidão nos convida.

    Carlos de Campos


  • Podcast – Episódio: Silêncio, Medo e Aceitação

    Pip: Memória e poesia chegou com versos que não deixam ninguém em paz — no melhor sentido possível.

    Mara: É isso. Os textos de Mensagem com poesia percorrem dois territórios pesados: a violência silenciada do assédio e a inevitabilidade da morte. Vamos começar pelo que dói mais de perto — o poema que fala de mãos, medo e a pergunta que não deveria ter resposta incerta.

    Violência, silêncio e a certeza errada

    Pip: O poema “Mãos de Assédio” coloca o leitor exatamente onde não quer estar — dentro da cabeça de alguém que passou a noite acordada pesando se denuncia ou se cala, sabendo que ambas as opções têm um custo.

    Mara: O poema nomeia isso com precisão: “Há tantas perguntas, onde só deveria existir uma certeza: que não fosse a certeza da impunidade.”

    Pip: Ou seja, a única certeza disponível é a pior de todas. Não a certeza de que denunciar resolve — mas a de que provavelmente não resolve. É aí que o silêncio vira uma escolha racional, e não uma fraqueza.

    Mara: O poema sustenta essa tensão do começo ao fim. Há uma lúcidez perturbadora na voz: “Sinto-me confusa, estranhamente lúcida” — os dois estados coexistindo, sem resolução fácil.

    Pip: “Estranhamente lúcida” é uma das combinações mais honestas que já vi num poema sobre trauma. A confusão e a clareza não se cancelam — se alimentam.

    Mara: E o corpo aparece como registro do que aconteceu: “Ainda sinto sua mão suja em mim.” A cidade segue em movimento, o mundo não parou, mas ela está deitada com calafrios, tentando se projetar para longe o suficiente para não ter que voltar.

    Pip: Voltar, no poema, é sinônimo de se acovardar. O que é uma inversão brutal — porque o senso comum diria que ficar é coragem. Aqui, partir é a única saída que sobrou.

    Mara: É um poema que não consola e não resolve. Ele documenta. E essa escolha de não oferecer alívio é, em si, uma forma de denúncia.

    Pip: Falando em aceitar o que não tem conserto — o próximo poema vai fundo em outro assunto que ninguém quer encarar.

    O que se esvai com o tempo

    Mara: O poema “Morte” é curto e direto: “No passar dos anos, tudo se esvai naturalmente. Aceitar é o melhor caminho.”

    Pip: Três linhas que fazem o que a maioria dos textos sobre morte não consegue — não dramatizam, não consolam com promessas, só nomeiam.

    Mara: Há uma serenidade austera nisso. O poema não pede que a morte seja bonita ou justa. Pede que seja aceita. E essa distinção importa.


    Pip: Silêncio forçado de um lado, aceitação necessária do outro — os dois poemas falam de rendição, mas com cargas completamente diferentes.

    Mara: Uma rendição que dói, outra que libera. Vale a pena voltar a esses versos com calma.

  • Mãos de Assédio

    Mãos de Assédio

    Sua mão perdida em minha perna.
    Meu silêncio denuncia o medo.
    O que fazer? Pergunto-me.
    No silêncio, perco-me dentro de mim,
    na angustiante dúvida de denunciar.
    Já não estou mais lá.

    Durante toda a noite, fiquei acordada.
    Fazer o que sobre isso?
    Me calar?
    Denunciar?
    Há tantas perguntas,
    onde só deveria existir uma certeza:
    que não fosse a certeza da impunidade.
    Sinto-me confusa,
    estranhamente lúcida,
    pela certeza que tenho
    de que me calar é o melhor caminho.
    O medo só aumenta
    à medida que o dia se aproxima.
    Não me sinto bem.
    Minha voz desapareceu.
    Ainda sinto sua mão suja em mim.

    A cidade se movimenta.
    Deitada e com calafrios, me encontro.
    Distante da realidade, tento me projetar.
    Projeto-me para tão longe que não quero mais voltar.
    Voltar significa me acovardar.
    Na penumbra dos meus pensamentos, me escondo.

    Carlos de Campos