Abro a janela com o desânimo estampado na alma. Na escuridão da noite, eu me refugio. Da mente atormentada tento me afastar, e no vazio encontro o meu sentido. Suave é o peso que devo carregar. É suave nos sufocar constantemente. De um dia para o outro, me prendo ainda mais.
Um mar de mágoas me submerge. Me afogo, esperneio até me cansar. Afundo devagar, muito devagar. Aos poucos, não sinto mais meu corpo. Esse antro de preocupações, desejos assombrados, volta para a superfície. Tento respirar os tóxicos existenciais, a amargura universal estampada em nossa cara, a cara de iludidos. Me afogo no êxtase da realidade, no alcoolismo das minhas entranhas. Na fuga, acendo um cigarro contendo nicotina.
Aqui nesta terra precisamos escolher. Um passo de cada vez para sobreviver. Um experienciar de cada sensação por vez. Na sutileza da vida, desconfiar para mais tarde não se ferir. Em cada amanhecer é preciso ser feliz, mesmo que isso lhe custe a própria vida.
Estou cansado e preciso dormir. Estou quase morto; a vida quase não resiste mais. É a vida que passa por entre as mãos. Os olhos cansados estão quase se fechando.
Corpo e mente estão desfalecendo, sucumbem pela força da natureza; estão sem forças para reagir, entregues, não se opõem, apenas confiam na sabedoria da natureza que simplesmente os carrega.
Esta é a nossa oportunidade para nos desapegarmos de nossas ilusões, dessas ilusões que tramam contra nós. Como não se opor a essas ilusões?
Tudo é mergulho profundo, é luta e entrega, é opressão que nos sufoca e que também nos faz ver sentido para resistir, para persistir, enquanto seguimos, seguir para um dia vencer.
De dentro de minhas próprias entranhas, eu me encontro; é como se eu tivesse retornado ao útero materno, estou sendo gestado. É a vida sendo concebida novamente.
Da morte à vida, libertação tardia; libertação tardia também é libertação plena. Não importa quando a libertação chegará, o que importa realmente é que, quando chegar, é preciso estar preparado.
Reviver é o mesmo que sobreviver? É a espera em uma esperança fria? É a universalidade do finito? É a mentira posta como verdade? É o meio de um inteiro? É a alma de um corpo sem vida? É a vida em um corpo morto? O que eu devo saber? No momento certo saberei? Não existe o momento certo para as incertezas.
Soube onde iria quando nasci, quando me abraçastes pela primeira vez. Naquela noite, tudo fazia mais sentido. Sentia como se fosse um delírio, momento único para estar só, na trincheira da vida, sozinho. Longo silêncio interior. Não há mais nada para viver.
Uma centelha de esperança se acende no fundo da alma humana, na escuridão profunda da consciência, no mar tempestivo das emoções, na mais bela razão que nos faz estar vivos, na finitude da existência que nos aprisiona. Nada mais é tão simples como viver, como pena lançada ao vento, que apenas voa.