Tag: autoconhecimento

  • A loucura de uma verdade

    A loucura de uma verdade

    Os loucos andam entre nós.
    Nos machucam.
    Diferente de nós,
    são iluminados com a verdade.
    A verdade sempre dói.

    Ah, os loucos!
    Tidos como incapazes,
    observam o que a nossa mente sóbria não percebe.
    Sóbria?
    A verdade sempre dói.

    Me diga a verdade.
    Somos incapazes por estarmos chapados de tanta sobriedade.
    Somos a história de nossas meias verdades.
    Ah, os loucos!
    A verdade sempre dói na carne.

    Na verdade, não sabemos lidar com a nossa contrariedade,
    com a promiscuidade latente em nossa mente.
    Mentimos para nos escondermos da nossa realidade.
    Mentimos para nos protegermos da dor que dói o dia inteiro.
    Essa é a verdade que vai doendo até mais tarde.

    Vem e veja essa dor.
    É a dor feita de verdades,
    verdades que tentamos esconder.
    Ah, os loucos!
    Não temem a verdade que dói o dia inteiro.

    Carlos de Campos
  • Sangue correndo pelas minhas mãos

    Sangue correndo pelas minhas mãos

    Suas mãos estão sujas de sangue.
    Sangue...
    Acabou de matar.
    Sangue…

    Sangue escorrendo de sua boca.
    Sangue...
    Matou uma moça virgem
    para alcançar seus desejos.

    Violência!
    Ouvem-se gritos em meio à neblina.
    Gritos de prazer sórdido,
    gritos do próprio assassino.

    Amanheceu, e os terrenos baldios,
    cheios de corpos, encontramos.
    Corpos desfigurados.
    Sangue por todo lado.

    Esquartejadas as encontraram.
    A violência segue.
    As noites nos causam calafrios.
    Cheiro forte de sangue no ar.

    Sangue escorre pela minha boca.
    Nada recordo da noite passada.
    Estou amarrado em uma camisa de força,
    louco para beber o teu sangue e comer sua carne.

    Carlos de Campos
  • Viajante do espaço

    Viajante do espaço

    Ordem, grita a voz rouca.
    Não és um animal incontrolável.
    Na verdade, és a chama a me incinerar,
    doente dos olhos.

    Ordem é o meu nome.
    Começo a não mais enxergar.
    É a vista enfraquecida,
    humor desproporcional.

    Ordem e desordem me acompanham.
    Cabeça baixa.
    Insultos posso ouvir.
    Mercadoria, tudo em ruína.

    Desordem em meu ser,
    na história que se revela,
    que se abate sobre nós,
    nessa triste escuridão.

    Carlos de Campos

  • O gorjear da alma

    O gorjear da alma

    Gorjeia, no fundo de nossa alma,
    o canto do sabiá,
    cantando o cântico da solidão,
    da solidão.

    Gorjeia a alma solitária,
    cantada pelo sabiá.
    Canto no canto da alma,
    da alma ferida pelo amor.

    Não se ouve mais o sabiá;
    seu gorjear silenciou-se
    pela ferida da alma.
    A solidão nos convida.

    Carlos de Campos


  • Podcast – Episódio: Silêncio, Medo e Aceitação

    Pip: Memória e poesia chegou com versos que não deixam ninguém em paz — no melhor sentido possível.

    Mara: É isso. Os textos de Mensagem com poesia percorrem dois territórios pesados: a violência silenciada do assédio e a inevitabilidade da morte. Vamos começar pelo que dói mais de perto — o poema que fala de mãos, medo e a pergunta que não deveria ter resposta incerta.

    Violência, silêncio e a certeza errada

    Pip: O poema “Mãos de Assédio” coloca o leitor exatamente onde não quer estar — dentro da cabeça de alguém que passou a noite acordada pesando se denuncia ou se cala, sabendo que ambas as opções têm um custo.

    Mara: O poema nomeia isso com precisão: “Há tantas perguntas, onde só deveria existir uma certeza: que não fosse a certeza da impunidade.”

    Pip: Ou seja, a única certeza disponível é a pior de todas. Não a certeza de que denunciar resolve — mas a de que provavelmente não resolve. É aí que o silêncio vira uma escolha racional, e não uma fraqueza.

    Mara: O poema sustenta essa tensão do começo ao fim. Há uma lúcidez perturbadora na voz: “Sinto-me confusa, estranhamente lúcida” — os dois estados coexistindo, sem resolução fácil.

    Pip: “Estranhamente lúcida” é uma das combinações mais honestas que já vi num poema sobre trauma. A confusão e a clareza não se cancelam — se alimentam.

    Mara: E o corpo aparece como registro do que aconteceu: “Ainda sinto sua mão suja em mim.” A cidade segue em movimento, o mundo não parou, mas ela está deitada com calafrios, tentando se projetar para longe o suficiente para não ter que voltar.

    Pip: Voltar, no poema, é sinônimo de se acovardar. O que é uma inversão brutal — porque o senso comum diria que ficar é coragem. Aqui, partir é a única saída que sobrou.

    Mara: É um poema que não consola e não resolve. Ele documenta. E essa escolha de não oferecer alívio é, em si, uma forma de denúncia.

    Pip: Falando em aceitar o que não tem conserto — o próximo poema vai fundo em outro assunto que ninguém quer encarar.

    O que se esvai com o tempo

    Mara: O poema “Morte” é curto e direto: “No passar dos anos, tudo se esvai naturalmente. Aceitar é o melhor caminho.”

    Pip: Três linhas que fazem o que a maioria dos textos sobre morte não consegue — não dramatizam, não consolam com promessas, só nomeiam.

    Mara: Há uma serenidade austera nisso. O poema não pede que a morte seja bonita ou justa. Pede que seja aceita. E essa distinção importa.


    Pip: Silêncio forçado de um lado, aceitação necessária do outro — os dois poemas falam de rendição, mas com cargas completamente diferentes.

    Mara: Uma rendição que dói, outra que libera. Vale a pena voltar a esses versos com calma.

  • No sombrio cadáver se fazem vitórias

    No sombrio cadáver se fazem vitórias

    Norteando…
    Desequilíbrio à vista,
    medo sob imposição.

    Movimento de possibilidades,
    da vitória da verdade,
    dos lunáticos encarcerados.

    Mergulho em vitórias,
    vitórias alcançadas com lutas,
    batalhas conquistadas na marra.

    Carlos de Campos
    Foto por Turgay Koca em Pexels.com
  • Nosso Brasil de um povo solidário

    Nosso Brasil de um povo solidário

    A nossa beleza está nos brasileiros e brasileiras,
    no clima amistoso com a vida,
    no sorriso de um povo cheio de esperança,
    de uma esperança que nunca se cansa.

    O povo de várias camadas,
    complexas e profundas,
    de traumas que ainda machucam
    e que comovem por ainda buscar forças para lutar.

    Nosso Brasil!
    Natureza oponente,
    vibra quem aqui vive,
    não estamos à venda.

    Brasil da incoerência,
    coração que pulsa na boca,
    na alma verde e amarela,
    no campo verde da integridade.

    O Brasil, como qualquer outro país,
    tem os seus altos e baixos.
    Cada país, assim como o Brasil,
    espera que o seu povo esteja lúcido.

    O povo unido é mais forte,
    um povo que busca os mesmos ideais:
    justiça e fraternidade para todos,
    um povo solidário e muito brasileiro.

    Carlos de Campos
  • O homem sensato está aberto à mudança

    O homem sensato está aberto à mudança

    No instante, tudo muda,
    tudo é alegria de tudo.
    No instante, tudo muda,
    muda a alegria.

    Por mais que você tente,
    o teu ser é transmutado.
    O que era felicidade
    tornou-se um fracasso.

    Mudanças o tempo todo.
    O que não muda se quebra.
    Não é aconselhável
    permanecer parado.

    Mudanças sempre são necessárias.
    É o desejo de todo ser vivente,
    é a agonia da alma perdida
    que busca ser encontrada.

    Então, que venha a mudança.
    Que nada permaneça estável.
    O medo se transforma em coragem,
    que o luto se transforme em esperança.

    O amor barrado
    encontra o caminho livre,
    porque tudo é colocado em movimento,
    o movimento vital.

    Carlos de Campos

  • Quem deseja a traição?

    Quem deseja a traição?

    Um entre nós
    É o traidor,
    Digno de exclusão,
    De uma vida esquecida.

    Os traidores estão à espreita,
    Desorientados…
    Tornando-se ainda mais perigosos,
    Estão desejosos por sangue.

    Não estará vencido
    Desde que seja detido.
    Todo o processo de educação
    É o lugar certo para se obter a transformação.

    Carlos de Campos
  • Morte

    Morte

    No passar dos anos,
    tudo se esvai naturalmente
    Aceitar é o melhor caminho.

    Carlos de Campos