Na manhã desta segunda-feira, sem que eu soubesse de nada, ele foi embora. E com ele, levou minha filha. Em mais um ato canalha e covarde, ele ainda orquestrou o sequestro dela. Nada posso fazer além de chorar.
Sou alcoólatra. Estou desempregada. Passei a maior parte da minha vida morando entre uma calçada e outra. Em que mundo eu ganharia a guarda da minha filha? É um jogo perdido. E agora? Que rumo devo tomar na vida? O único fio que me segurava aqui acabou de se romper.
Vago pelas ruas na esperança de reencontrar minha filha. Bêbada, ando meio quarteirão por dia. Quando paro, minha mente tenta me trazer de volta à lucidez.
É difícil para mim viver sóbria, porque, ao ficar sóbria, sou levada a verdades que me machucam demais. A realidade é dura demais para mim. Preciso me manter afastada dela — e, alcoolizada, é o melhor que posso fazer por mim mesma.
Nos meus poucos dias de sobriedade, martela no meu peito a dor de não ter conseguido ser mãe. A culpa por ter me deixado levar pelo alcoolismo me consome. Quem sou eu além de uma andarilha? A noite mal chegou e cá estou, completamente bêbada. Há uma tristeza pairando no ar — bem mais poderosa do que em outras vezes. Desta vez, até alcoolizada consigo senti-la. Ela rasga o meu peito com um vazio descomunal. E eu não tenho para onde correr.
São dias como este que me fazem desejar estar com você — e é normal desejar algo assim. É assim que funcionamos: queremos o que nos gera aquela aparência de tranquilidade. E não há nada de errado nisso. O problema surge quando isso se torna um álibi interno para, diante de qualquer conflito, usarmos como desculpa para pular do barco — seja do emprego, de um relacionamento ou de uma amizade. Há muita gente por aí vivendo nesse modelo de vida.
Desejo e mais desejos — é assim que estamos vivendo: desejando tudo e todos. Desejando… e, quando desejar já não funciona, então exigimos, impomos, para que os nossos desejos mais vis se realizem. É preciso desejar com muita cautela. E já passou da hora de voltar-se para o próprio interior — não como mais um gesto egoísta, mas com a firme atitude de quem vai refletir sobre a própria vida. Sobre essa vida de desejos por desejos mesquinhos.
Em busca de quê você tem pautado a sua vida? Desejos? Que tipo de desejo tem cultivado em sua existência? Deseja uma vida de segurança e tranquilidade? Será mesmo possível viver nesse clima? No que você tem pensado hoje? Ah, bem que poderia existir uma fórmula mágica para suprirmos todos os nossos desejos… desejos egoístas, desejos insaciáveis. Desejo desejar você algum dia — porque essa é a vida de quem ainda não mergulhou em sua própria existência.